canto pra falar do nada
pra dizer tudo
em coisa alguma.
pontos de luz na treva
ou pontos de treva na luz?
porto pras minhas palavras
singelamente plurais e (im)puras.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
galacta
fluxo de pensamentos inomináveis
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
pequenas sinfonias
como lâminas finas, fluidos corrosivos
e desembocam intranquilos
da minha língua inquilina
de verbos sublimados
morada
que era nulo, vago e morto
julguei-me errado,
julguei-me roto.
mas minhas pernas erguidas
minhas penas sofridas
arrancaram-me, elevaram-me
com mais força que pedra firme.
sou mais sólido que o vento
e quando eu tento
posso até ser mais que penso
mesmo que um pouco tenso.
de agora em diante, não mais remorso
sei que agora tudo posso,
que tudo traço e destroço:
eis meu sorriso no rosto.
resguardarei minhas intenções
arquitetarei revoluções
e dos meus medos superados
erguerei fortaleza e treva armados.
serei negro e branco e transparente
nunca d'antes tão presente
nunca antes tão como eu
jurei e juro ser meu
inteiro no erro desnecessário
completo no gozo herege
e na nudez pura que me rege - até a hora da morte,
achar em mim o abrigo provisório.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
carta imprevista e desconsiderável para o todo
tome cuidado com isso também. se somos o que pensamos que somos, temos que prestar mais atenção em quem nos diz como nos pensar.
grandes votos! abraços.
espero conhecer ou conversar com você um dia.
até lá, força, luz e felicidade para você e para os seus.
ass: m.o.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
ânima
de tudo que eu poderia ter sido
viver só esse horizonte belo e tecido
com veias de montanha, céu e mar
deixar morrer essa fantasia minha
que eu não mais controlo, desolado
ressucitar em mim a vontade pequenina
de um velho garoto inacabado
sentenças ou juízos ou da morte dos meus últimos sonhos
uma mão firme e imaginária dá voltas à chave, escondendo os dois ali dentro como um segredo a ser esquecido.
- E agora?
-...
-...
- ABRE ESSA PORTA!!!
-...
- ABRE ESSA MERDA!!!
as batidas ecoam, flutuam no aposento mal acabado, vasto, imenso, infinito... e minguam, murcham, morrem.
silêncio. tempo.
- E agora?
- Agora é esperar...
... tempo grande e sem misericórdia.
- Não consigo! - diz baixinho, aflita, e chora só lágrimas, sem soluços.
- Shhh, calma! - pegando ela pelos ombros, abraçando contra os dele.
- Os outros! e os outros?!
- Não sei... sumiram como os gatos da tia Adélia, ou as chaves do apartamento. Talvez nunca sejam encontrados.
- Será que eles...?
- Não, não!
...
- Você me ama?
- Não. Não mais... não te amo há 7 anos.
- Sexo?
- ... pois se a carne é fraca...
...
- Queria um cigarro.
- Queria comunhão.
- Foi bom?
- Sim. E você?
- Sim... sabe, sempre te amei mais.
- Hunf.
- Sério!
- Poupe-me.
...
- A gente vai morrer, né?
- Vamos.
- Fomos felizes?
- Fomos o que?
- Felizes! Fomos?
- Será que fomos...?
...
- Será que vai doer?
- Um pouco, acho.
...
- Não era pra terminar assim.
- Não, não era...
...
ZAPT! jorra sangue multi-colorido, que entumece, enegrece, apodrece e evapora.
e o que mais me apavora: em mim nem doeu.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
da chave encontrada
um gozo de lágrimas
súbito e sulfuroso
intenso copioso
quase melodramático
se não fosse o mais real
como num abre-te sesamo
encontrei meus rios salgados
pela boca de um sábio ocasional
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após meses de candura e cara branda, um raio de esperança:
chorei como criança no quarto empoeirado
como adulto em quarta de cinzas
chorei uma liberdade mínima e imensa
suspendendo uma sina
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
na verdade, parece existir nessa atmosfera uma ausência, uma sensação de que algo está para acontecer, uma aproximação do clímax ou do apocalipse.
há uma falha na fortaleza de vidro e pedra e ferro, na fortaleza de nuvens de elétrons e tempestades. uma brecha que deixa entrever os olhos de uma besta epilética, demoniacamente insana, fora de si, alimentada por anos de fome, prisão, residente do medo, numa sede de caos e lágrimas, que parece não alcançar um limite menor que o seu próprio orgulho, que é muito, ou da espessura de sua imensa masmorra.
há um desejo profundo, profano, impronunciável de que ela me ataque com seus olhos distorcidos em banquete. que minhas entranhas nutram as suas, que os meus pensamentos, minha letra, minhas meias de algodão manchado e as camisas de seda, meus amores, meus pais, minha poltrona, meu cinema, minha biblioteca de livros por ler, meus pés de caminhos percorridos, tudo que em mim sou eu ou fora de mim se desmanche em seu estômago satisfeito.
quero isso e quero muito! preciso, imploro, peço a mim mesmo que me dê a chave que prende todo aquele caos atrás das grades intumescidamente titânicas.
tarde percebo que joguei a chave.
ou antes, que tragicamente, ela nunca existiu.
esqueci a senha, não tenho o passe, não controlo, não sou - não mais - o rei desse castelo tão meu.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
acidente protético n°1 - ou da visão de ângulos múltiplos
de vidro!
um globo
inteiropartido
lamentações
terça-feira, 15 de setembro de 2009
fotografia - ou a escrita do tempo
todas as cicatrizes na face muda
mudada da infância nua e bravia
- agora resíduo, espera rouca.
visita-me como em douto presságio
das minhas profecias preferidas
enraigadas nas veias, na tela, na moldura dos ossos
- uma manhã tão distante da janela.
costura de costume e graça
numa névoa densa ao toque da memória,
pequena tapeçaria empalhada de minha glória
perdida - nos entrepassos do tempo vadio.
o sol enlaça luz e traças na carne
radiografada na fotografia surrada,
roubada de minha alma tão alheia,
roupagem de um sonho vivido.
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o sol na foto, e lá fora na grama, no céu eterno e branco
o mesmo sol da antes-Terra, do chimpanzé e dos dinossauros,
dos neandertais, dos sapientíssimos ocidentais e dos orientais pacientíssimos,
de newtons, einsteins, balzacs, mozarts, openheimers, hitlers, dalis,
akiras, mao tses, confúcios,
orixás, iatolás, xexênos, nigerianos, esquimós,
bailarinos, palhaços, bandidos, extremistas religiosos,
ditadores, índios, nômades, ciganos, defuntos, crianças, não nascidos...
sol em foto é o retrato da ironia.
boemia
seja reflexo imprevisto da alma
que pela manhã dissolverá dores minhas
numa gota surpresa de frio na espinha
se houver tal momento, desejo prazer
na manha rala das salas vazias
e havendo riso destilado, traz-me
uma dose em três de euforia
e se nessa fria, tremenda madrugada
houver companheira ardente e ingrata
dai-me, noite em claro,
esperanças de alvorada.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
do rosto irrefletido #1
em cores tais que descoram
como sangue seco nas flores
que o alto de berços decoram
tenho coragem para refletir
em minha efígie esse alvoroço
e no resto do que sou, no dorso,
carregar a letra que me ferir
amaldiçôo as noites que escuras
predizerem minhas torturas,
os sinos e as linhas proféticos
que dispersarem no vento o meu eco,
melodias que finjam meus amores,
ritmos que desafiem meu maiores erros,
esses verbos poucos que me ditam
na veia os pulsares que me limitam.
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esses sons desiguais se enlaçam
como lâminas finas, fluidos corrosivos
e desembocam intranqüilos, agudos
no espírito dos que os perfaçam.
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*porque nessa sina parece que falta hemoglobina e sobra verniz e resina.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
quitutes
suas salivas quentes me saciam, me entorpecem
me enchem de um gozo pleno, sem cautela.
línguas outras que me falam o que eu digo
antes de eu pesar as idéias pensadas.
repouso na língua de outrem, me cubro
e descubro com seu hálito quente.
e é confortável, até quando me engolem.
sou parte num todo, estou digesto
e me alimento até de mim mesmo, se preciso.
e me sacio, como se fosse isso possível.
e acabo, como doce em boca de criança gulosa.
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e você pensa que não se alimenta de mim a cada palavra lida?
quinta-feira, 2 de julho de 2009
do ímpeto n°2
que em si não terá nem lágrimas
nem gozo alheio nem rimas
algum que seja obsoleto
nenhuma linha no tempo
a rebeldia confusa
uma liberdade obtusa
que supere esse lamento
eu não sei ainda fazê-lo
não serei eu o autor
entre outros a mim será o elo
nisso nem haverá dor
nem será assim puro o poema
noutro papel será edema
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*há liber-dade e gosto até no despropósito.
do ímpeto
do mundo, por trás das re
gras, das n
ossas leis apaga
das, enraizadas, enrai
ve(n)cidas,
loucas.
o mundo, por pouco
-que um pouquinho só-, es
tá entre
laçado,
agonizante,
nas noss
as v
ontade
s.
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*comorespostaaumamigo
segunda-feira, 29 de junho de 2009
da digressão linguística n° 1
(do insight) da plenitude
deixei-me acreditar / que era nulo, vago e morto / julguei-me errado, / julguei-me roto.
mas minhas pernas erguidas / minhas penas sofridas / arrancaram-me, elevaram-me /com mais força que pedra firme.
sou mais sólido que o vento / e quando eu tento / posso até ser mais que penso / mesmo que um pouco tenso.
de agora em diante, não mais remorso / sei que agora tudo posso, / que tudo traço e destroço: / eis meu sorriso no rosto.
resguardarei minhas intenções / arquitetarei revoluções / e dos meus medos superados / erguerei fortaleza e treva armados.
serei negro e branco e transparente / nunca d'antes tão presente / nunca antes tão como eu / jurei e juro ser meu
inteiro no erro desnecessário / completo no gozo herege / e na nudez pura que me rege - até a hora da morte - / achar em mim o abrigo provisório.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
verdades universais escondidas na parede branca
mas parece que no fundo toda sabedoria deseja ser burra.