quinta-feira, 19 de novembro de 2009

galacta

esse espaço, e sua ciranda de estrelas
alimentam no homem o próximo passo:
querendo ser forte, de aço,
se vê minúsculo, opaco, de cera.

e nada lhe resta mais que a cadeira
de madeira polida e educada
para contar constelações, na sacada,
dessas musas luminosas e alheias.

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como consolação, Deus deixa o homem
após eras de agonia e deserção de um Éden infinito
virar luz e poeira à beira de um rio.

fluxo de pensamentos inomináveis

o mundo passeia no universo como criança a brincar
anda abaixado entre o silêncio e o luar
que dilúvios infinitos comanda, como a chorar
nunca dissolvendo a melancólica nota do passar
do tempo que te faz cada ano mais leve que o ar

que nada te permite ter, que nada lhe permite sonhar
que chora à noite, como recém-nascido, querendo mamar
faz levantar da cama, faz querer se suportar
até essa noite, pequenina, faz um leito pra deitar
e voar e sumir e morrer e voltar ao início, um lugar

que não existe nem tem o exaltar daquele brilho
que pensavas ter, que pensavas achar, que nada é.

ainda restará na curva estranha do horizonte
uma folha de orvalho que se assemelhe
ao triste acabar da madrugada, perenemente
absorta em acabar-se na alvorada?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

pequenas sinfonias

esses sons desiguais se enlaçam
como lâminas finas, fluidos corrosivos
e desembocam intranquilos
da minha língua inquilina
de verbos sublimados

morada

deixei-me acreditar
que era nulo, vago e morto
julguei-me errado,
julguei-me roto.

mas minhas pernas erguidas
minhas penas sofridas
arrancaram-me, elevaram-me
com mais força que pedra firme.

sou mais sólido que o vento
e quando eu tento
posso até ser mais que penso
mesmo que um pouco tenso.

de agora em diante, não mais remorso
sei que agora tudo posso,
que tudo traço e destroço:
eis meu sorriso no rosto.

resguardarei minhas intenções
arquitetarei revoluções
e dos meus medos superados
erguerei fortaleza e treva armados.

serei negro e branco e transparente
nunca d'antes tão presente
nunca antes tão como eu
jurei e juro ser meu

inteiro no erro desnecessário
completo no gozo herege
e na nudez pura que me rege - até a hora da morte,
achar em mim o abrigo provisório.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

carta imprevista e desconsiderável para o todo

ih, liga não. só não tenho muito o que dizer pra alguém que eu nem conheço, fica um clima estranho. nada contra amizades virtuais, mas eu me cansei delas quando o meu mundo ganhou um sabor de brisa na companhia palpável das pessoas no mundo lá fora. aqui, depois disso, sempre me parece algo meio aborrecido. mas vc parece ter tanto a intenção de se dar, no bom sentido, que eu até fico curioso com a sua pessoinha. quem é vc? (ps: ninguém é a descrição do perfil, pelo amor de deus, buda e matuzalém!) o que vc faz, onde vc gosta de estar e com quem, o que vc gosta de viver? um abraço requintado, desses de bunda afastada ainda. PS: não to te dizendo -cresça!- ou coisa assim, mas tome cuidado, se seu envolvimento com a gente daqui. nada há de errado com as pessoas fantasiarem, criarem, se esconderem. mas se envolver com as sombras ou as máscaras declaradas pode ser algo atordoante, dolorido... é chato imaginar as pilhas de pessoas que se escondem sob essa coisa do (eu sou diferente, único, eu causo, etc)
as pessoas se esquecem que são muito mais comuns do que pensam, ou, se percebem isso, não entendem que não é algo ruim ser comum. hj em dia existe um desespero tão imenso dessa nossa galera indigente em ser alguém, que me pergunto o que realmente elas querem dizer... ou pior, o que elas querem ser.
tome cuidado com isso também. se somos o que pensamos que somos, temos que prestar mais atenção em quem nos diz como nos pensar.

grandes votos! abraços.

espero conhecer ou conversar com você um dia.
até lá, força, luz e felicidade para você e para os seus.

ass: m.o.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

ânima

eu quero a sorte de poder me esquecer
de tudo que eu poderia ter sido

viver só esse horizonte belo e tecido
com veias de montanha, céu e mar

deixar morrer essa fantasia minha
que eu não mais controlo, desolado

ressucitar em mim a vontade pequenina
de um velho garoto inacabado

sentenças ou juízos ou da morte dos meus últimos sonhos

a porta se fecha. ruidosamente primeiro, gemendo, depois bate (CLANG!).
uma mão firme e imaginária dá voltas à chave, escondendo os dois ali dentro como um segredo a ser esquecido.
- E agora?
-...
-...
- ABRE ESSA PORTA!!!
-...
- ABRE ESSA MERDA!!!
as batidas ecoam, flutuam no aposento mal acabado, vasto, imenso, infinito... e minguam, murcham, morrem.
silêncio. tempo.
- E agora?
- Agora é esperar...
... tempo grande e sem misericórdia.
- Não consigo! - diz baixinho, aflita, e chora só lágrimas, sem soluços.
- Shhh, calma! - pegando ela pelos ombros, abraçando contra os dele.
- Os outros! e os outros?!
- Não sei... sumiram como os gatos da tia Adélia, ou as chaves do apartamento. Talvez nunca sejam encontrados.
- Será que eles...?
- Não, não!
...
- Você me ama?
- Não. Não mais... não te amo há 7 anos.
- Sexo?
- ... pois se a carne é fraca...
...
- Queria um cigarro.
- Queria comunhão.
- Foi bom?
- Sim. E você?
- Sim... sabe, sempre te amei mais.
- Hunf.
- Sério!
- Poupe-me.
...
- A gente vai morrer, né?
- Vamos.
- Fomos felizes?
- Fomos o que?
- Felizes! Fomos?
- Será que fomos...?
...
- Será que vai doer?
- Um pouco, acho.
...
- Não era pra terminar assim.
- Não, não era...
...
ZAPT! jorra sangue multi-colorido, que entumece, enegrece, apodrece e evapora.

e o que mais me apavora: em mim nem doeu.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

da chave encontrada

algo ocorreu que vagueia no corpo da mente
um gozo de lágrimas
súbito e sulfuroso

intenso copioso
quase melodramático
se não fosse o mais real

como num abre-te sesamo
encontrei meus rios salgados
pela boca de um sábio ocasional
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após meses de candura e cara branda, um raio de esperança:
chorei como criança no quarto empoeirado
como adulto em quarta de cinzas
chorei uma liberdade mínima e imensa
suspendendo uma sina

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

há uma falha na imensa fortaleza. exércitos inimigos não são problema. não as armas, nem chamas ou gritos, hinos, bandeiras.
na verdade, parece existir nessa atmosfera uma ausência, uma sensação de que algo está para acontecer, uma aproximação do clímax ou do apocalipse.
há uma falha na fortaleza de vidro e pedra e ferro, na fortaleza de nuvens de elétrons e tempestades. uma brecha que deixa entrever os olhos de uma besta epilética, demoniacamente insana, fora de si, alimentada por anos de fome, prisão, residente do medo, numa sede de caos e lágrimas, que parece não alcançar um limite menor que o seu próprio orgulho, que é muito, ou da espessura de sua imensa masmorra.

há um desejo profundo, profano, impronunciável de que ela me ataque com seus olhos distorcidos em banquete. que minhas entranhas nutram as suas, que os meus pensamentos, minha letra, minhas meias de algodão manchado e as camisas de seda, meus amores, meus pais, minha poltrona, meu cinema, minha biblioteca de livros por ler, meus pés de caminhos percorridos, tudo que em mim sou eu ou fora de mim se desmanche em seu estômago satisfeito.

quero isso e quero muito! preciso, imploro, peço a mim mesmo que me dê a chave que prende todo aquele caos atrás das grades intumescidamente titânicas.

tarde percebo que joguei a chave.
ou antes, que tragicamente, ela nunca existiu.
esqueci a senha, não tenho o passe, não controlo, não sou - não mais - o rei desse castelo tão meu.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

acidente protético n°1 - ou da visão de ângulos múltiplos

caiu o meu olho
de vidro!

um globo
inteiropartido
lamentações

terça-feira, 15 de setembro de 2009

fotografia - ou a escrita do tempo

o sol congelado de pronto, promete
todas as cicatrizes na face muda
mudada da infância nua e bravia
- agora resíduo, espera rouca.

visita-me como em douto presságio
das minhas profecias preferidas
enraigadas nas veias, na tela, na moldura dos ossos
- uma manhã tão distante da janela.

costura de costume e graça
numa névoa densa ao toque da memória,
pequena tapeçaria empalhada de minha glória
perdida - nos entrepassos do tempo vadio.

o sol enlaça luz e traças na carne
radiografada na fotografia surrada,
roubada de minha alma tão alheia,
roupagem de um sonho vivido.
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o sol na foto, e lá fora na grama, no céu eterno e branco
o mesmo sol da antes-Terra, do chimpanzé e dos dinossauros,
dos neandertais, dos sapientíssimos ocidentais e dos orientais pacientíssimos,
de newtons, einsteins, balzacs, mozarts, openheimers, hitlers, dalis,
akiras, mao tses, confúcios,
orixás, iatolás, xexênos, nigerianos, esquimós,
bailarinos, palhaços, bandidos, extremistas religiosos,
ditadores, índios, nômades, ciganos, defuntos, crianças, não nascidos...


sol em foto é o retrato da ironia.

boemia

que a amante de meus pecados
seja reflexo imprevisto da alma
que pela manhã dissolverá dores minhas
numa gota surpresa de frio na espinha

se houver tal momento, desejo prazer
na manha rala das salas vazias
e havendo riso destilado, traz-me
uma dose em três de euforia

e se nessa fria, tremenda madrugada
houver companheira ardente e ingrata
dai-me, noite em claro,
esperanças de alvorada.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

do rosto irrefletido #1

juro guerras afogando dores
em cores tais que descoram
como sangue seco nas flores
que o alto de berços decoram

tenho coragem para refletir
em minha efígie esse alvoroço
e no resto do que sou, no dorso,
carregar a letra que me ferir

amaldiçôo as noites que escuras
predizerem minhas torturas,
os sinos e as linhas proféticos
que dispersarem no vento o meu eco,

melodias que finjam meus amores,
ritmos que desafiem meu maiores erros,
esses verbos poucos que me ditam
na veia os pulsares que me limitam.

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esses sons desiguais se enlaçam
como lâminas finas, fluidos corrosivos
e desembocam intranqüilos, agudos
no espírito dos que os perfaçam.

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*porque nessa sina parece que falta hemoglobina e sobra verniz e resina.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

quitutes

existem mil línguas entrelaçadas à minha
suas salivas quentes me saciam, me entorpecem
me enchem de um gozo pleno, sem cautela.

línguas outras que me falam o que eu digo
antes de eu pesar as idéias pensadas.

repouso na língua de outrem, me cubro
e descubro com seu hálito quente.
e é confortável, até quando me engolem.

sou parte num todo, estou digesto
e me alimento até de mim mesmo, se preciso.
e me sacio, como se fosse isso possível.
e acabo, como doce em boca de criança gulosa.

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e você pensa que não se alimenta de mim a cada palavra lida?

quinta-feira, 2 de julho de 2009

do ímpeto n°2

escrever qualquer soneto
que em si não terá nem lágrimas
nem gozo alheio nem rimas
algum que seja obsoleto

nenhuma linha no tempo
a rebeldia confusa
uma liberdade obtusa
que supere esse lamento

eu não sei ainda fazê-lo
não serei eu o autor
entre outros a mim será o elo

nisso nem haverá dor
nem será assim puro o poema
noutro papel será edema

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*há liber-dade e gosto até no despropósito.

do ímpeto

e então o mundo está por trás
do mundo, por trás das re
gras, das n
ossas leis apaga
das, enraizadas, enrai
ve(n)cidas,
loucas.

o mundo, por pouco
-que um pouquinho só-, es
tá entre
laçado,
agonizante,

nas noss
as v
ontade
s.

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*comorespostaaumamigo

segunda-feira, 29 de junho de 2009

da digressão linguística n° 1

qual é a real necessidade de letra maiúscula? é uma letra gananciosa com sonhos de grandeza, não tem realmente nenhuma finalidade prática. se vc vê a pontuação, não há porque maiúsculas. acho que as letras merecem ser todas iguais, do jeito que falamos, do jeito que sentimos. a escrita tinha que obedecer a gente, e não o contrário.

(do insight) da plenitude

deixei-me acreditar / que era nulo, vago e morto / julguei-me errado, / julguei-me roto.

mas minhas pernas erguidas / minhas penas sofridas / arrancaram-me, elevaram-me /com mais força que pedra firme.

sou mais sólido que o vento / e quando eu tento / posso até ser mais que penso / mesmo que um pouco tenso.

de agora em diante, não mais remorso / sei que agora tudo posso, / que tudo traço e destroço: / eis meu sorriso no rosto.

resguardarei minhas intenções / arquitetarei revoluções / e dos meus medos superados / erguerei fortaleza e treva armados.

serei negro e branco e transparente / nunca d'antes tão presente / nunca antes tão como eu / jurei e juro ser meu

inteiro no erro desnecessário / completo no gozo herege / e na nudez pura que me rege - até a hora da morte - / achar em mim o abrigo provisório.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

verdades universais escondidas na parede branca

não contem a ninguém.
mas parece que no fundo toda sabedoria deseja ser burra.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

do sonho no cansaço

mas no dia seguinte vem um alívio, e o peso se quebrou na cama. não há mais impecilhos, nem nomes para problemas. eles não importam mais. a brisa é fresca e leve nos cabelos. o sol acaricia devagarzinho as nuvens. as árvores conversam entre seus galhos.
em breve trarei um sorriso desses no rosto.