essa lágrima clara
é a matéria dos sonhos desfeitos
é essa parede branca
a resvalar todo esquecimento
é essa lua branda
a expurgar todos os defeitos
é essa palavra fria
a lacerar todo sentimento
é essa pessoa fina
a vagar curso incerto
essa lágrima amarga - e clara
como pesadelo mais vivo
que suavemente apaga o sorriso
e docemente dança no meu rosto
retrata tudo que é imperfeito
essa gota de esclarecimento
e é o bem mais sólido que tenho
nesse paço imenso, nessa vida e devaneio
essa lágrima clara, em suma,
sou eu revelado e inteiro
dobrado sob um peso imenso
de um sonho, uma gota, um espelho
-----
a lágrima
é enfim isso que ensina
o fim e a sina
canto pra falar do nada
pra dizer tudo
em coisa alguma.
pontos de luz na treva
ou pontos de treva na luz?
porto pras minhas palavras
singelamente plurais e (im)puras.
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
domingo, 9 de setembro de 2007
cala calamidades
perdão pela dura palavra
que você não disse.
desculpa essa pressa,
que torna tudo tão curto.
me absolve esse devaneio
louco que nunca quis te revelar
e esses traços na parede
que não te deixei riscar.
não me julga pela pedra
que eu joguei pro ar
e caiu nas suas costas
pra tu sozinho carregar.
lamento tantas horas que engoli
no tédio insuportável de te esperar
- afinal, como esperar por ti
que sempre carreguei no meu olhar?
lembro dessa falta de sentido
que nunca permiti
e essa tanta desmesura
que sempre infligi.
olha esse poder grande
que eu sempre tive:
de calar o universo
daquilo que eu nunca proferi.
perdoa, minh'alma,
essa minha tão tola criatura
que no defeito te reflete
impura
nesse mundo avesso
do outro lado do espelho
em que o silêncio te espanta
e me mata.
------
*foi, sei, tola a tentativa
tentar te calar pra suprimir a dor.
tudo fica pior quando não te digo
sussurrando no ouvido
tudo isso quanto for
misto de calor e frio
a vagar no meu mundo
no meu corpo à fora.
que você não disse.
desculpa essa pressa,
que torna tudo tão curto.
me absolve esse devaneio
louco que nunca quis te revelar
e esses traços na parede
que não te deixei riscar.
não me julga pela pedra
que eu joguei pro ar
e caiu nas suas costas
pra tu sozinho carregar.
lamento tantas horas que engoli
no tédio insuportável de te esperar
- afinal, como esperar por ti
que sempre carreguei no meu olhar?
lembro dessa falta de sentido
que nunca permiti
e essa tanta desmesura
que sempre infligi.
olha esse poder grande
que eu sempre tive:
de calar o universo
daquilo que eu nunca proferi.
perdoa, minh'alma,
essa minha tão tola criatura
que no defeito te reflete
impura
nesse mundo avesso
do outro lado do espelho
em que o silêncio te espanta
e me mata.
------
*foi, sei, tola a tentativa
tentar te calar pra suprimir a dor.
tudo fica pior quando não te digo
sussurrando no ouvido
tudo isso quanto for
misto de calor e frio
a vagar no meu mundo
no meu corpo à fora.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
dos deveres
em que o choro pesa,
quando a alma pede clemência
e se perde do peito pio.
deve ser assim que se sente
quando se afoga e agoniza,
erra em tudo aquilo que se tente,
e tudo mais e pouco se esvazia.
deve ser assim no meio de tudo,
quando se perde a calma,
que o medo toma conta
e a esperança vai embora.
deve ser assim que sempre é
deve ser assim porque é preciso
deve ser assim o sentimento do mundo
conciso e confuso no vidro.
deve ser assim que na verdade
sempre me sinto, na vontade
de achar resposta alguma
pra tudo quanto dessentido.
deve ser assim... tormento.
deve ser assim, tortura
a espera da espera pura
que se espanta a todo momento.
para que tudo se consuma
e para que tudo mude
deve ser assim
e assim deve ser
eu sempre
um passo a mais
longe de mim.
__
imagem: http://centelhasdeinfinito.blogs.sapo.pt/arquivo/pegadas%20na%20areia%202.jpg
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
íris decaída
meu olhar me despe:
pecador arrependido.
meu olhar se perde:
pensador perdido.
meu olhar permuta
toda dor em fantasia.
meu olhar pergunta:
ainda há alguma ferida?
meu olhar impera
sobre os corpos na rua.
meu olhar persegue
meus anseios terríveis.
e a alma cega grita
palavras invisíveis
que fogem inteiras
ao meu olhar – risível.
e o meu olhar, então,
escondido, irrevelado,
na medida dessa hora
imensa, se despede.
----
*aos meus olhos covardes,
e prepotentes...
sonhadoramente fechados.
foto:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/images/1431_storm/5142525_storm12.jpg
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
cem poesias
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
das verdades (ou da nudez)

minhas verdades andam pelas ruas
um tanto quanto arrependidas
vaidosas e vadias.
perdidas.
minhas verdades morrem de silêncio
um tanto quanto esquecidas
vaporosas e arredias.
inafiançáveis.
minhas verdades caem de vazias
um tanto quanto erradas
sonhadas e iludidas.
irrealizadas.
minhas verdades tortas...
minhas mentiras.
eu inteiro torto e perdido,
encontrado do avesso
nessas verdades nuas.
um tanto quanto arrependidas
vaidosas e vadias.
perdidas.
minhas verdades morrem de silêncio
um tanto quanto esquecidas
vaporosas e arredias.
inafiançáveis.
minhas verdades caem de vazias
um tanto quanto erradas
sonhadas e iludidas.
irrealizadas.
minhas verdades tortas...
minhas mentiras.
eu inteiro torto e perdido,
encontrado do avesso
nessas verdades nuas.
segunda-feira, 23 de julho de 2007
dor
nem dor se sente.
tem um quê ausente
que em tudo andava antes.
que era aquilo?
que espera...
amargo e longo momento.
minhas palavras de brilhantes,
quando em pouco as perdi?
----
...a poesia não é remédio, como eu achava que era antes...
tem um quê ausente
que em tudo andava antes.
que era aquilo?
que espera...
amargo e longo momento.
minhas palavras de brilhantes,
quando em pouco as perdi?
----
...a poesia não é remédio, como eu achava que era antes...
terça-feira, 17 de julho de 2007
pedraria

amor, viu a última grande muralha
que se ergueu em plena madrugada?
foi construída com laço de sangue
em segredo pela aurora fria.
o sol que brota, não mais da montanha,
mas da muralha sombria,
tudo separa e tudo aponta
revelando podre a verdade fina.
suas pedras, seus lamentos,
sua concreta harmonia dissonante e seca,
tudo em volta e dentro da parede
que bota sede na alma sadia.
saciaria alma, se pudesse,
mas alma de pedra não fala
por trás da parede
-esquife eterno de solidão.
amor, viu a última grande muralha?
não se preocupe, não procure, amor.
a muralha não está no horizonte.
-----
que se ergueu em plena madrugada?
foi construída com laço de sangue
em segredo pela aurora fria.
o sol que brota, não mais da montanha,
mas da muralha sombria,
tudo separa e tudo aponta
revelando podre a verdade fina.
suas pedras, seus lamentos,
sua concreta harmonia dissonante e seca,
tudo em volta e dentro da parede
que bota sede na alma sadia.
saciaria alma, se pudesse,
mas alma de pedra não fala
por trás da parede
-esquife eterno de solidão.
amor, viu a última grande muralha?
não se preocupe, não procure, amor.
a muralha não está no horizonte.
-----
palavra de pedra
palavra perdida
no meio do caminho
andar com teu peso, que tua arma e arremesso
presos no peito, dilacera todo e qualquer sonho.
sai de mim, já não te quero, excedente
peso frio dos meus mortos amigos e amores.
quero de novo meu corpo-pedra
que se não amava, não cantava,
mas também não chorava, não gemia
no sorriso algoz dessa vida.
----
andar com teu peso, que tua arma e arremesso
presos no peito, dilacera todo e qualquer sonho.
sai de mim, já não te quero, excedente
peso frio dos meus mortos amigos e amores.
quero de novo meu corpo-pedra
que se não amava, não cantava,
mas também não chorava, não gemia
no sorriso algoz dessa vida.
----
sexta-feira, 29 de junho de 2007
senti-sinestésico-icídio
é estranho que hoje não me cale. estranho que toda imagem deistorcida vibre perante os meus olhos ardentes: tudo grita mais... até mesmo as pedras, até mesma a brisa.
vejo em tudo sinfonia calada, que se apregoa pelo espaço a fora. e dentro de mim o barulho que quer irromper o tédio, a palavra desvairada que precisa criar, o vício insaciável de escrever nas paredes brancas dessa vida pra ver se encontro na cor da letra o des-sentido da vida.
escrevo para vazar, pra me derramar inteiro nos teus olhos.
até que finalmente me olhe e eu vire idéia ou lembrança.
escrevo porque meu retrato é ransoso e não se satisfaz com o meu sorriso. ele não me tem. é retrato de céu, de árvore, de grama, de criança, de velho, de tarde, de hora, de praça, de mar, de estrela, janela, areia, água de rio e chuva...
e viver, parece que eu percebo, é uma doce vertigem. o des-sentido só, sem motivo, sem razão, sem compromisso: marivilhoso des-sentido, essa não-prisão, essa desnecessidade, esse não-tempo, essa eternidade...
voz sumida a minha.
sumida do mundo: fala ela... ninguém escuta.
diz com a mão, o toque, o calor em mim.
e é prazer e dor tão grande, que parece que vou romper, me rasgar, trucidar-me, acabar, explodir, sumir...
mas nunca, nunca, nunca, nunca morrer.
porque é explosão que ecoa e nunca morre, se debate para sempre nas paredes do quarto fechado.
vejo em tudo sinfonia calada, que se apregoa pelo espaço a fora. e dentro de mim o barulho que quer irromper o tédio, a palavra desvairada que precisa criar, o vício insaciável de escrever nas paredes brancas dessa vida pra ver se encontro na cor da letra o des-sentido da vida.
escrevo para vazar, pra me derramar inteiro nos teus olhos.
até que finalmente me olhe e eu vire idéia ou lembrança.
escrevo porque meu retrato é ransoso e não se satisfaz com o meu sorriso. ele não me tem. é retrato de céu, de árvore, de grama, de criança, de velho, de tarde, de hora, de praça, de mar, de estrela, janela, areia, água de rio e chuva...
e viver, parece que eu percebo, é uma doce vertigem. o des-sentido só, sem motivo, sem razão, sem compromisso: marivilhoso des-sentido, essa não-prisão, essa desnecessidade, esse não-tempo, essa eternidade...
voz sumida a minha.
sumida do mundo: fala ela... ninguém escuta.
diz com a mão, o toque, o calor em mim.
e é prazer e dor tão grande, que parece que vou romper, me rasgar, trucidar-me, acabar, explodir, sumir...
mas nunca, nunca, nunca, nunca morrer.
porque é explosão que ecoa e nunca morre, se debate para sempre nas paredes do quarto fechado.
suspensão
minha voz não está gravada
meu rosto não aparece em fotos
meu cheiro sumiu no instante
minha pele apodreceu negra
a alma perece aos poucos
e canta enquanto se desfaz
em doses homeopáticas
milimétricas e sem rima
não existe som no vazio
não existe luz dentro da carne
no cerne do universo
tudo cintila somente
lamuriosamente
como prestes a acabar.
não existe pergunta que não se cale
perante o segundo que se encerra
atrás das véias saltadas dos prédios
das pontes, dos telhados, das contruções.
a orquestra suspensa dos sonhos
sempre fingindo que tudo sabem
espertos que são.
mas no salto tudo voa, desprende,
esvaece
não resta ao menos o ponto
até que o poema toque o chão
.
meu rosto não aparece em fotos
meu cheiro sumiu no instante
minha pele apodreceu negra
a alma perece aos poucos
e canta enquanto se desfaz
em doses homeopáticas
milimétricas e sem rima
não existe som no vazio
não existe luz dentro da carne
no cerne do universo
tudo cintila somente
lamuriosamente
como prestes a acabar.
não existe pergunta que não se cale
perante o segundo que se encerra
atrás das véias saltadas dos prédios
das pontes, dos telhados, das contruções.
a orquestra suspensa dos sonhos
sempre fingindo que tudo sabem
espertos que são.
mas no salto tudo voa, desprende,
esvaece
não resta ao menos o ponto
até que o poema toque o chão
.
quinta-feira, 21 de junho de 2007
onírico
sim! sonhar e mais e sempre
caminhar com pés de núvem.
respirar a brisa púrpura
e sangrar o sorriso branco.
sonhar pra escapar da dor
sonhar pra catar a flor da vida
sonhar para surgir a dúvida
sonhar pra semear poesia.
cantar pra dizer o sonho
com o espírito rouco,
e na virada da quina da hora
pra distrair o tempo pouco.
sim, sonhar!
blasfemar a verdade cinza
navegar esperanças
quebrar barreiras de vento.
sonhar e acordar
para não se perder,
para frasear,
fazer o ponto,
e montar a reticência
que se estende aguda
e segue aflita na espera
de suspender o pé do homem.
caminhar com pés de núvem.
respirar a brisa púrpura
e sangrar o sorriso branco.
sonhar pra escapar da dor
sonhar pra catar a flor da vida
sonhar para surgir a dúvida
sonhar pra semear poesia.
cantar pra dizer o sonho
com o espírito rouco,
e na virada da quina da hora
pra distrair o tempo pouco.
sim, sonhar!
blasfemar a verdade cinza
navegar esperanças
quebrar barreiras de vento.
sonhar e acordar
para não se perder,
para frasear,
fazer o ponto,
e montar a reticência
que se estende aguda
e segue aflita na espera
de suspender o pé do homem.
quarta-feira, 13 de junho de 2007
totalidades
o todo é uma parte.
o tudo é parte alguma.
todo o tudo é cada parte,
que leva do nada à solução
nenhuma.
se, contudo, tudo é cada coisa,
tal é como se tudo fosse uma:
uma coisa meia certa,
meia parte, meio oculta.
tudo é um pouco nada,
- e nada adianta isso tudo:
tem ainda todo um resto
de parte, numa outra metade.
nunca tudo é tão distante
de tudo, em instante.
sempre e longe, de tão perto,
tudo oco e o todo nada.
o tudo é parte alguma.
todo o tudo é cada parte,
que leva do nada à solução
nenhuma.
se, contudo, tudo é cada coisa,
tal é como se tudo fosse uma:
uma coisa meia certa,
meia parte, meio oculta.
tudo é um pouco nada,
- e nada adianta isso tudo:
tem ainda todo um resto
de parte, numa outra metade.
nunca tudo é tão distante
de tudo, em instante.
sempre e longe, de tão perto,
tudo oco e o todo nada.
terça-feira, 12 de junho de 2007
semi-obituário

perdão, caros senhores invisíveis,
pelo meu sensível e insensato silêncio.
volto aqui com a certeza
que não tenho mais,
de que o sol quebrará por certo
a treva errônea dos meus medos.
é que cá tenho o lirismo meio esfrangalhado,
doente terminal de mim mesmo.
doente de alergia, de abandono,
de tédio e de clausura.
e por fim, constado é, senhores,
o mal que consome:
eis que tudo me agoniza
pela falência múltipla
dos sonhos (findouros).
----
ele agonizava e não entendia, porque não queria entender. até que um belo e terrível dia, teve coragem: olhou no espelho. viu a si mesmo, tal como era, tal como fora, tal como, na verdade, sempre seria. indignou-se, botou o pé no teto do rancor, afogou-se. depois chorou. depois cansou. reergueu-se, mais fino e mais pálido do nunca. tacou muito dignamente a pedra no espelho: partiram-se ambos, tal como ele esperava, o espelho e a alma. virou de costas, retirou-se de si mesmo. foi modelar-se, ele sabe onde, num futuro não sei quando, com a mão trêmula de incertezas, caminhando com os pés firmes e podres, enraizados no chão.
pelo meu sensível e insensato silêncio.
volto aqui com a certeza
que não tenho mais,
de que o sol quebrará por certo
a treva errônea dos meus medos.
é que cá tenho o lirismo meio esfrangalhado,
doente terminal de mim mesmo.
doente de alergia, de abandono,
de tédio e de clausura.
e por fim, constado é, senhores,
o mal que consome:
eis que tudo me agoniza
pela falência múltipla
dos sonhos (findouros).
----
ele agonizava e não entendia, porque não queria entender. até que um belo e terrível dia, teve coragem: olhou no espelho. viu a si mesmo, tal como era, tal como fora, tal como, na verdade, sempre seria. indignou-se, botou o pé no teto do rancor, afogou-se. depois chorou. depois cansou. reergueu-se, mais fino e mais pálido do nunca. tacou muito dignamente a pedra no espelho: partiram-se ambos, tal como ele esperava, o espelho e a alma. virou de costas, retirou-se de si mesmo. foi modelar-se, ele sabe onde, num futuro não sei quando, com a mão trêmula de incertezas, caminhando com os pés firmes e podres, enraizados no chão.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
brevidades
eis aqui meu corpo fraco
e a minha vontade de vidro.
nunca sei se fico inteiro
nesse fio de voz fina,
que se espelha no espaço.
eis o meu sussurro itinerante
que sempre se perde no instante
e no tempo transita mágoas,
poemas e alegrias pálidos.
jaz aqui meu sopro ausente
que some tarde da noite,
no meio do dia,
entre o desespero
e o esquecimento.
está aqui o que eu era,
o que sempre erra na vida
e no sonho prospera
- esse sonho que finda.
eis-me em chamas consumido.
da memória do mundo, perdido.
inevitavelmente, eis que daqui me parto
ainda que, deveras, nunca tenha chegado.
e a minha vontade de vidro.
nunca sei se fico inteiro
nesse fio de voz fina,
que se espelha no espaço.
eis o meu sussurro itinerante
que sempre se perde no instante
e no tempo transita mágoas,
poemas e alegrias pálidos.
jaz aqui meu sopro ausente
que some tarde da noite,
no meio do dia,
entre o desespero
e o esquecimento.
está aqui o que eu era,
o que sempre erra na vida
e no sonho prospera
- esse sonho que finda.
eis-me em chamas consumido.
da memória do mundo, perdido.
inevitavelmente, eis que daqui me parto
ainda que, deveras, nunca tenha chegado.
terça-feira, 22 de maio de 2007
irracional e irresoluto
é a constatação mais insana e mais exata: estou morrendo, deveras, no mais profundo exame desse errado momento. dói-me o peito, de cheio, e a mente, de vazia. o peito cheio de mágoa e angústia que carrega contra essa vida minha, miserável que é; e a cabeça vazia, não mais meditante ou significante, tão pura e sordidamente rota, esfacelada e corrompida em desencontro.
tenho asco. tenho sede. tenho saudade. tenho medo.
não tenho força (e, sim, como me dói constatá-lo, sou fraco e patético).
não me tenho, não mais, pelo menos.
a chama que antes me aquecia cálida, está bruxuleante, como em vendaval mortífero: a chama balança louca desvairada e insana, quer sumir.
a razão, que já perdi há tempos, dela me esqueci...
...
não tem mais nada que vale a pena dizer, por enquanto dure essa merda de nó na garganta da alma podre.
no mais tenho vontades, nada mais.
*desesperadamente deprimido e inquieto.
tenho asco. tenho sede. tenho saudade. tenho medo.
não tenho força (e, sim, como me dói constatá-lo, sou fraco e patético).
não me tenho, não mais, pelo menos.
a chama que antes me aquecia cálida, está bruxuleante, como em vendaval mortífero: a chama balança louca desvairada e insana, quer sumir.
a razão, que já perdi há tempos, dela me esqueci...
...
não tem mais nada que vale a pena dizer, por enquanto dure essa merda de nó na garganta da alma podre.
no mais tenho vontades, nada mais.
*desesperadamente deprimido e inquieto.
sábado, 21 de abril de 2007
uma canção por fazer
na brevidade da brisa soou um sonho
que na aurora dourada fez moradia;
das carícias dum Sol profundo se fez,
e nas noites de prata ele ardia.
um sonho de cantar toda e cada nota
em cada espaço de espanto que ouvesse
no tempo da vida suave.
soaria o sonho em cada e toda esquina
de vento que leve mais longe o encanto
até pro menino da calçada ao relento
até nos berços eternos, as covas,
ou os berçários e os varais e os jardins.
e nas tardes carmins, sem demora,
põe-se o sonho a tocar os lábios
na sabida e ávida face da distância,
que se deita macia, e me faz te encontrar.
e o sonho de cantar alto, de lembrar cada letra
da qual me esqueci, sem nunca ter escutado antes
tal quão doce melodia.
vontade de criar músicas do nada,
da poeira fugidía dos dias,
pra embalar em calmaria
toda essa profuzão de sentimentos
e sentidos confusos.
uma música que bastava ser um assobio,
um sopro, fagulha de alma e sonho,
-a saber, uma letra incontida e criança,
recém desperta no peito do homem só.
uma canção a se fazer no meio do seio da vida
com calma vadia de se escorregar e correr
nos parques e nas curvas do destino.
um tom brando e macio, marcado ao passos
que ressoam nas paredes brancas,
o coração que salta em pulsos cândidos,
enlouquecido pra cantar.
---
o sol bate na janela, e alaranja e enche o quarto inteiro, inclusive o olhar e o sorriso. tô com vontade de cantar... mas sem letra, com calma, sem pressa, suave... quero cantar, mesmo que desafinado, uma vida inteira de sonhos e brisas.
escuto música nos seus movimentos macios, e nos seus cabelos, no seu perfume...
amor já é alegria e canto que me basta....
que na aurora dourada fez moradia;
das carícias dum Sol profundo se fez,
e nas noites de prata ele ardia.
um sonho de cantar toda e cada nota
em cada espaço de espanto que ouvesse
no tempo da vida suave.
soaria o sonho em cada e toda esquina
de vento que leve mais longe o encanto
até pro menino da calçada ao relento
até nos berços eternos, as covas,
ou os berçários e os varais e os jardins.
e nas tardes carmins, sem demora,
põe-se o sonho a tocar os lábios
na sabida e ávida face da distância,
que se deita macia, e me faz te encontrar.
e o sonho de cantar alto, de lembrar cada letra
da qual me esqueci, sem nunca ter escutado antes
tal quão doce melodia.
vontade de criar músicas do nada,
da poeira fugidía dos dias,
pra embalar em calmaria
toda essa profuzão de sentimentos
e sentidos confusos.
uma música que bastava ser um assobio,
um sopro, fagulha de alma e sonho,
-a saber, uma letra incontida e criança,
recém desperta no peito do homem só.
uma canção a se fazer no meio do seio da vida
com calma vadia de se escorregar e correr
nos parques e nas curvas do destino.
um tom brando e macio, marcado ao passos
que ressoam nas paredes brancas,
o coração que salta em pulsos cândidos,
enlouquecido pra cantar.
---
o sol bate na janela, e alaranja e enche o quarto inteiro, inclusive o olhar e o sorriso. tô com vontade de cantar... mas sem letra, com calma, sem pressa, suave... quero cantar, mesmo que desafinado, uma vida inteira de sonhos e brisas.
escuto música nos seus movimentos macios, e nos seus cabelos, no seu perfume...
amor já é alegria e canto que me basta....
domingo, 15 de abril de 2007
pro doce olhar duma menina
nesse mal-querendo viver
arrebentei meu peito à sua porta
só pra ver se você se importa...
nessa coisa besta de contar o tempo
me perdi nas horas dos seus lábios
e nada além disso me devora mais...
corro entre o vento e o seu vestido
brincado de carícia com seu veneno
que me mata na felicidade, alento.
nessa plenitude dessa tarde
já aparece tempestade
mas me embriago das ondas
do seu doce mar-amar...
ê, vida cansada no peito de tanto pulsar.
corro entre os morros do nosso leito.
nunca canso de te esperar.
e se é alta a lua ou a hora
que não seja a última a chegar
pra nós dois a alegria desse olhar.
o seu doce toque, meu suor de amor.
juntos nessa tarde, crianças ao tempo
da inocência nua dum brincar.
e já não é sem tempo,
que me arrebata o canto:
para sempre nessa tarde,
sempre e terno, amar você.
------
"que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure..."
Vinícius de Moraes
arrebentei meu peito à sua porta
só pra ver se você se importa...
nessa coisa besta de contar o tempo
me perdi nas horas dos seus lábios
e nada além disso me devora mais...
corro entre o vento e o seu vestido
brincado de carícia com seu veneno
que me mata na felicidade, alento.
nessa plenitude dessa tarde
já aparece tempestade
mas me embriago das ondas
do seu doce mar-amar...
ê, vida cansada no peito de tanto pulsar.
corro entre os morros do nosso leito.
nunca canso de te esperar.
e se é alta a lua ou a hora
que não seja a última a chegar
pra nós dois a alegria desse olhar.
o seu doce toque, meu suor de amor.
juntos nessa tarde, crianças ao tempo
da inocência nua dum brincar.
e já não é sem tempo,
que me arrebata o canto:
para sempre nessa tarde,
sempre e terno, amar você.
------
"que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure..."
Vinícius de Moraes
quarta-feira, 11 de abril de 2007
vespertinar
núvem matutina clareia o dia
respira brancura espelhada
na água do céu,
rio azul de ponta-cabeça.
de noite, à cima, precipício,
princípio e fim
no vazio estrelado.
os anjos quedam
sem o chão de céu.
sem asas, nem nada...
respira brancura espelhada
na água do céu,
rio azul de ponta-cabeça.
de noite, à cima, precipício,
princípio e fim
no vazio estrelado.
os anjos quedam
sem o chão de céu.
sem asas, nem nada...
terça-feira, 10 de abril de 2007
terça-feira, 3 de abril de 2007
despedida incontida
os versos que outrora tecia
são puros e agora lhe entrego
o poema de sangue rubro
e branco de paz eternecida.
na clareza santa da espera,
essa pútrida mansão dos sonhos,
me despedaço em tom macio
com o toque leve que teu olhar me dera.
não vejo mais, embriagado
em desatino, a distância
tão próxima desse meu horizonte,
que plácido deita-se - a oeste.
é com teu olho d'água
que na noite enxergo,
prevendo as madrugadas
a galgarem os montes.
é com teu olho fechado
que em sono profetizo
o som que há de romper
a aurora:
alma vazia a acorrer socorro.
mas seu esplendor divino
gozava calmaria leve.
calava-se o espírito
(por hora breve)
tão definitiva calmaria
inigualavelmente ardia
invejavelmente sonhava
em tal eternidade dormia
na vaguidão do destino
nunca outra aurora haveria
nunca mais a espera
nunca e sempre, tardia.
os versos que outrora tecia
agora - tão tarde - lhe entrego
na carta de sangue e espera
na noite que não me sorria.
--
pro Bruno
são puros e agora lhe entrego
o poema de sangue rubro
e branco de paz eternecida.
na clareza santa da espera,
essa pútrida mansão dos sonhos,
me despedaço em tom macio
com o toque leve que teu olhar me dera.
não vejo mais, embriagado
em desatino, a distância
tão próxima desse meu horizonte,
que plácido deita-se - a oeste.
é com teu olho d'água
que na noite enxergo,
prevendo as madrugadas
a galgarem os montes.
é com teu olho fechado
que em sono profetizo
o som que há de romper
a aurora:
alma vazia a acorrer socorro.
mas seu esplendor divino
gozava calmaria leve.
calava-se o espírito
(por hora breve)
tão definitiva calmaria
inigualavelmente ardia
invejavelmente sonhava
em tal eternidade dormia
na vaguidão do destino
nunca outra aurora haveria
nunca mais a espera
nunca e sempre, tardia.
os versos que outrora tecia
agora - tão tarde - lhe entrego
na carta de sangue e espera
na noite que não me sorria.
--
pro Bruno
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