canto pra falar do nada
pra dizer tudo
em coisa alguma.
pontos de luz na treva
ou pontos de treva na luz?
porto pras minhas palavras
singelamente plurais e (im)puras.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
mil coisas
e eu no meio e eu abaixo disso, imaginando as coisas mais escuras ou claras do que elas são, sem saber o que me diferencia delas. sem saber o que me liga a elas. sem saber o que ser.
sem saber o que dizer para me reconfortar dessa pontada de desânimo, dessa manhã clara, nessa vadia sorte de principiante, que escolhe a todos e à ninguém.
vai ser difícil, pensei, mas nem tanto.
há coisas piores do que cair no poço.
não encontrar a saída desse, não saber onde é pra cima. não saber que sempre se está no poço.
não saber que isso nnão é ruim. não entender e se matar aos poucos por isso.
mas as coisas continuam no fluxo de um rio. cair no poço pode te levar por leçóis de terra, abaixo dos pés e da razão. até florescer como água nova, lívida, fundamental e precária.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
...o que será que é isso?
algo que comove a alma, corrompe a mente, deixando as núvens vazias, as flores confusas de cor. Deixa tudo envolvido num mistério, num fogo sem luz, numa sombra branda, num vento de um afago. Uma carícia vazia, um beijo oco, num fluxo inédito, desconhecido, desses terrenos do espírito. E algo muda.
Seria paixão? Creio que, antes, medo.
Uma ânsia perante o abismo, onde todo caminho acaba...
Acaba? não.
A queda é um vetor, uma seta, um caminho igual e oposto a tudo que existe... a tudo que se conhece.
E perceber que essa queda é o caminho é o passo vital. Pois, é preciso lembrar, o tempo arrasta sempre em frente, sempre em frente, sempre em frente, como uma máquina prestes a nos esmagar em suas engrenagens sujas e enferrujadas. É uma marcha comandada sem condecendência, sem compaixão.
É preciso uma saída! Mas não há portas.
É preciso vontade! Mas não se encontra desejo.
É preciso esperança! Mas não há saída.
Tem-se a impressão de que certas questões não se resolvem, nem exixtem para isso. Elas estão vagandopor aí: uma interrogação semresposta... e por um momento, me lembro: Como isso é bom!!!
Aquela chibata que fere, sangra e aflora. Mas cicatriza, amadurece e se torna alegria. É uma felicidade assim, pura e ingênua.
A instância da existência, que comporta tão bem esse peso e esse gozo, essa escolha e essa perda... essa tentação e esse desejo.
Acho que isso é viver
domingo, 28 de setembro de 2008
secular
as horas têm uma mania curiosa de passarem vagarosas no domingo...
não há nada que se possa esperar nessas tardes monótonas.
nem salvação, nem paz. é tudo uma comunhão estranhamente familiar entre tédio e energia.
algo que preso no peito, perversamente converte a libido em pecado, inalienavelmente.
nem a solidão é pura, nem a comunhão liberdade. é uma flutuação entre a carne e o espírito. uma vontade louca de estrapolar a tênue linha da abstinência. o prazer que invade a santidade e se espalha vadiamente pelos pêlos, pela nuca, pelos seios... e desce.
o inferno está coberto de confissões e falso arrependimento - pois não há porque se arrepender.
pende a luxuria vagarosa no relógio, a preguiça inabalável, o desejo quase mórbido de ater-se para sempre num segundo antes da fatídica segunda-feira... descobrindo que há espaço no tempo secular do domingo.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
despropósito
um que tenha asas de tinta
e pernas de cobre e aço.
um que cante sem voz.
se quiseres um fado, te dou.
um com tinta de ácido
e sabor de morango.
um que é gozo e algoz.
se quiseres um fado, te dou.
um que vagueia manso
e termina tanto bruto.
um que desfaz a vida.
se quiseres um fado, te dou.
um que atormenta a hora
e suspende teu medo.
um fado chamado poesia.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
regras do jogo
algo que, como assim,
peguei pra mim.
não foi por mal
mas, às vezes, eu erro, sim.
mas, às vezes, não é assim,
todo eu que há em mim.
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à nós, Rafa.
e às (n/v)ossas Dissoluções Filosóficas
intuição n°1 [ imagens irremediáveis]
deve ser porque nunca se mede onde cuspir, nunca se pede o que cumprir. porque nunca se mexe. está ali.
deve ser porque de nenhum outro jeito seria, se não fosse exatamente como não é.
é o demônio no paraíso.
deve ser assim...
---
inspirado em
Apenas Sinta.
*fui lá e me deu medo e sabor.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
proibições n°4 [devaneios metafísicos]
não gosta nem não gosta, não ama, nem não ama.
nem alma, nem desalma.
nem lama nem pó.
a alma é roupa queimada e sem sujeira, limpa, mas faceira.
pronta a nos enganar, tomar posse e nos abandonar.
alma é pior do que puta!
proibições n°3[do bem]
mas assado, e não assim.
se fosse assim, seria fato fácil na vida por um fim. sem que ninguém se canse, ninguém se acuse ou cause descontentamento...
a vida sem felicidade seria muito mais feliz.
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*felicidade como compromisso último é pura falta de criatividade.
e de liberdade.
proibições n°2 [eu]
eu nunca nunca.
nunca.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
explicação para mudança abrupta de humor
algo invade o meu peito...
acho que é a felicidade
fazendo ronda
no terreiro.
mias
segundas intenções e uma péssima poesia
a malevolência do olhar
o fraco do vencedor
a vingança da sensibilidade lúdica
a pura vadiança das vizinhas
o suor escondido dos meninos
a pululança dos gemidos escorraçados
os segredos dos pais e dos filhos
eu sou desejo.
minha casa é a varanda
a sala a cama o mato o suspiro
a senzala e a casa-grande
o cristão o judeu o árabe e o ateu
a África e o mundo desde a Etiópia
a China e América e todo canto
que esvaece de gozo a cada instante
*dados estimam no mundo constantemente, a cada instante instante, uma média de 60.000.000 (60 milhões de pessoas) estão transando... O que você está esperando?? contribua para as estimativas continuarem altas!!
carta n° 9 [atrás de um momento]
aprenda a sorrir com os seus acasos, caro amigo. eles muito nos revelam sacanas e humildes comediantes de sentimentos, poesias, romantismo, sonho e desejo.
porque o acaso, é como papai noel: só existe se acreditamos nele. e acreditando nele, acreditamos em nós mesmo, nus e crus, na esperança de algo que quebra a monotonia de nosso destino grandiosamente indigente.
proibições n°1 [felicidade pode?]
nada além da verdade
pura e a priorística
de um ser definido
sem decisão.
há algo como o quê
de um destino incisivo
por baixo do poder
da vontade, fatalidade!
passivo a tudo,
à hora, ao inferno,
à lombriga na entranha,
na estranha condição
esta de estar vivo.
domingo, 31 de agosto de 2008
despejo
não ressurge, nem salva
está só e desgastada
no relento da relva.
foi
encoberta e sangrada
pelos degraus da escada do progresso.
regresso
e minha casa já não é
casa
não é linha
nem verso.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
espectacula
agora! - e somente agora
ela está sincera.
e franca e fraca.
e na fraqueza, está bela.
então, olha!
como ela se despedaça
suavemente em olor de laranjeira
nessa brisa breve, em cor carmim.
vê que ela sublima, não anda.
evapora, não mais espera
se esvai pelos meus olhos,
a mim podre me abandona.
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
carta n°8 [mocinho e bandido]
gloreamos a seu desejo de sangue, de brutalidade, da sua monstruosidade redentora, que nos permite ir mais além do que nós mesmos, retrocedendo-nos, ao desejável nível de animais, e ao desejado posto de predadores indomáveis.
pobres e miseráveis mortais que somos, botamos um sonho pra lutar, violentar, massacrar, e engolimos toda a repugnância de nossa vida regrada, tediosa, previsível, mesquinha, humana.
só eles, os heróis, podem levar a glória de um assassinato, de uma vingança, de uma justiça, de um amor, de um sexo. afinal, eles é que batem, correm, vigiam, perdoam, esmigalham e fodem como ninguém. (e já aparecem com mocinha diferente no episódio seguinte... despedidas sem grande serimônia, nem flores, nem desculpas).
nossos hérois criminosos, hediondos e ridículamente exagerados. que não habitam o cume da imaginação humana, mas apenas o monte sagrado de seu desespero, guardado a sete torpes chaves de moral.
- nossa! porque tão aflito?
- sei lá... acho nunca vi ninguém chorando no funeral do bandido.
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porque o meu herói tá lá é pra meter porrada mesmo!!! hahahaha
fatabilidades
se não ris é por bobagem
se estas firme, há de cair
se estas morto, és passagem
se te alegras é por engano
se te sobra, é a fotaleza
se te falta, é mais leveza
se enalteces, és abandono
se há ruptura, és covarde
se meio dia, és alarde
se plenilúnio, és quimera
se partistes, assim quisera.
a visão à beira do infinito
como o concreto firme
sob os rígidos andaimes.
já não há rios nesses olhos
nem poeira, nem estrada,
nem salvação, nem caos.
e parecem ver estáticos
estrelas pontiagudas
que nunca sessam de brilhar.
nunca, nunca, nunca...
os meus olhos eternos
já estão cansados
de ver o mundo acabar.
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imagem: http://img5.travelblog.org/Photos/47789/224722/t/1741246-The-Eyes-Won-t-Leave-Me-1.jpg
sexta-feira, 11 de julho de 2008
rit(m)os?
e tenho pés calejados.
e os ouvidos calados
e a boca alejada e dura.
e está perdido e achado!
tudo que eu quiz
a não ser aquilo
que me diz minha falta.
que há nesse calor
que não sinto
e que já se foi na pressa
e na presa do tempo?
desgaste-cronologia
não há espaço
para floreios.
tudo é muito grande
mas não inteiro
entre dois rios.
há um rio que sobe
o outro que desce:
passado e fluente,
num espaço pequeno
que encerra
dois momentos.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
das baladas de amor entreabertas
mas não há o que fazer, além do que a vida diz
e tudo que resta é morrer no mar - de horror
quando se esquece o que vem da verdade, amor.
vem pra perto vem, vem de pressa vem sem fim
porque o meu fim já passou. não me resta tempo
ou vontade, e tudo além é potestade - e marfim
frio que alcança o pudor e a morte no escoupo.
me beija e me faz esquecer - dos meus medos
de tudo que errei, e da tanta falta que me fiz,
e de tudo que deixei escapar pos entre os dedos
pra que se queira, se possa, levar e ser feliz.
----
sinto que falta dizer alguma coisa, mas não tenho tempo no tempo que tenho
segunda-feira, 7 de julho de 2008
desmatérias
está perdido do teu rosto. caiu
e - benção! - veio dar no meu olho
como um cisco de um sonho.
que parte mais de ti carrego eu
que comigo embolo a balada?
e na novela inenarrada, quê
de tudo mais que anda nessa terra?
saiba que contigo levas, despecebida,
grande parte de minha alma,
e mesmo dessa lama que escorre
dos meus dedos, filho do barro que sou.
--
do dia que me apaixonei pela Vênus de Milo.
sábado, 5 de julho de 2008
no momento, estou perplexo, no instante entre dois momentos, à espera de que algo aconteça derrepente e perpetue em minha mente todas as experiências pueris de inocência.
no momento, todos parados e eu no foco de luz sob a lareira baixa, a cantar minhas mais claras cartas de desejo podre e farto.
existindo à espreita.
insistindo na escrita.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
carta n° 7 [de amor]
teamoepontosemexplicaçãosemnecessidadedemedidasemomenorsentido
teamoporqueteamoebasta
teamoemeamoeamoamaratalpontoquenemespaçocabeentreaspalavras
teamotãoloucamentequenãomemeçopelagramáticaoupelosenso
teamoenãorenegoador
teamoeamo
teamo,amor
---
gozado essa carta tão cármica a um número tão cármico estar relacionado
poderia dizer muitas outras coisas, mas me abstenho para não quebrar o clima
quem sabedaí não nasce outra carta, de compromisso maior e menor que o nosso amor?
a aline
segunda-feira, 9 de junho de 2008
carta n°6 [da solubilidade do ser]
tantas quantas coisas, letras, pessoas, momentos, palavras, pernas, desejos, noites e dias, poemas, folhas, anúncios, covas, passos, teorias, mentiras, beijos, filmes, discos e fotos e fatos e viagens e chegadas e partidas e perdas e ganhos e sons e núvens e rios e tanto mar que já me dissolvi tanto e tão completamente
e me perdi.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
carta n° 5 [dos passados]
que só voltam um segundo, se tanto
nessas fotos esquecidas no espelho.
existem lembranças, amigos, intentos,
tantas coisas que não se repetem
que não se retém - mesmo em sonho.
mas, antes que o coração apodreça
é melhor que se diga, de pressa:
não descumpro minha promessa!
não esqueço, me esforço e detenho
qualquer coisa mais em pensamento
que as velhas lembranças surradas
e nossa velha inocência perdida.
--------
... morrendo de saudades de tudo aí.
partes de mim que ainda não encontrei, residem aí, nas praias, escondidas na areia, no parquinho, na velha escola abandonada...
tanta coisa tão perdida e tão achada quebrada de baixo do tapete, atrás das cortinas do vento.
há uma coisa de lembrar o passado que nos consome, percebe?
algo que lacera e revitaliza, sem nunca apagar de todo, sem nunca se deixar morrer de todo... sem nos deixar morrer de todo, pelo menos.
um grande abraço na turma toda, especialmente em você.
anos que não vejo ninguém, a imaginação voa alto e pesada...
como vai tudo?
grande abraço.
mande notícias do mundo de lá.
__
escrita para Vitória, a cidade que habita uma parte nebulosa do meu passado, e para as pessoas que lá habitam, na cidade em mim.
acho que ainda tenho alguma corrente me prendendo lá, de forma deliciosa - e triste.
30/05/2008
segunda-feira, 26 de maio de 2008
verborragia sabedora
alguma coisa eu sei por ouvir dizer que se sabe sabendo que tudo que se sabe sabe-se ao meio e pouco menos que as coisas lúcidas são sabíveis descobri que saber é pouco mais que estar acordado mas sabendo que se sabe assim somente a metade há de fazer saber que saber é também dissabor pois nada saber é melhor que saber metade do que há para saberporém se sabe-se que a metade outra não se pode saber a metade é saber tudo pois se sabe que não podemos saber o que é impossível saber saber metade é saber o que há pra se saber e é portanto saber tudo
mas do dissabor do saber metade isso é a saber a coisa mais sabedora entre os saberes e os sabores
saberás que não há sabor real em saber e saber não tem sabor pois não queima nem esfria não fede nem cheira não sabe nem não sabe
saber é não saber e isso é saber pois sabendo que não se sabe faz saber que sabemos o primordial que saber não se sabe
e isso é saber o bastante
__
imagem: www.camiseteria.com/
terça-feira, 20 de maio de 2008
carta n°4 [a carta que eu não te escrevi]
Lembro que a memória refestelava, e que a alma se partia (tamanho golpe que, sim, me lembro como se fosse ontem). Lembro que na fenda ficou vazio. Lembro que o vazio se encheu de veneno, que matava toda graça.
Lembro que tudo que fora dito, foi esquecido. Lembro que só me ficaram (ainda até hoje me perseguem) as palavras não ditas, entaladas, mutiladas no silêncio.
Lembro do travesseiro duro, da coberta fria, da noite demente que se arrastava perante as estrelas.
Lembro que o dia amanheceu como um desejo agonizante de viver...arrastou-se, arrastou-se...
e lá pela quase meia-noite dormiu.
Nunca te perguntei: como você gostava de mim?
Sei que eu nutria por você, e não me era segredo, inveja.
Uma inveja brincalhona, como que de um fã, de irmão mais novo. Minha vontade era mesmo te encontrar cada vez mais no meu espelho, no meu espírito. Queria ser como você, andar como você, falar como você, agir, sentir, pensar, amar e sofrer como você. Muitas vezes me odiava, se não pela minha incompetência, pela idiotice dessa inveja. Na verdade, ela ainda existe.
Nunca tive pena de você. Senhor de si, sei que havia algum motivo... E se não tivesse, não importava. Mesmo naquela madrugada que deprimia até a mais cálida rosa branca.
Não tinha pena, mas já não tinha inveja, nem ria...
A dor era tanta naquela despedida tão definitiva, tão eterna... perdia-se o sentido.
Enquanto te escondiam com madeira e terra e cruzes e números, mesmo assim submerso, te sentia ainda soerguido, vivo e inteiro, ao meu lado no vento, murmurante... em mim.
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OBS:
a única e verídica carta
04/03/2007
(para o bruno)
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imagem:http://damdam.typepad.com/_au_fil_de_mes_journes_/images/2007/03/14/78341958_73af52f87f.jpg
segunda-feira, 19 de maio de 2008
carta n° 3 [sobre as cartas]
porque acho que na verdade são as cartas que nunca recebi,
as palavras que nunca compartilhei comigo mesmo, ou com outrem.
e porque a poesia não se limita a versos e músicas.
porque não preciso ser coerente.
porque não é preciso a poesia.
porque há outras formas de se dizer o que se deve dizer.
porque é mais sincero porque é confortável porque faz bem porque é preciso
e quase necessário.
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imagem: http://www.cs.kuleuven.ac.be/~dirk/.image/ada-letters.jpg
domingo, 18 de maio de 2008
carta n° 2 [conselho aos amigos - ou do caminho]
a vida dói. mas tem lá seu mercúrio cromo e vermelho. toda ferida há de sarar, e todo desalento há de passar.
esperança, essa idiota equilibrista bêbada, resiste infinita à queda na face bruta da realidade.
toda tormenta há de acalmar, toda malícia há de sumir e todo caminho há de acabar. e só se têm felicidade verdadeira, quando se descobre que na verdade
, não existe caminho algum.
PS: detesto sair de casa. me lembra que eu sou menor que o mundo.
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imagem:http://pensadora2.blogs.sapo.pt/arquivo/caminho%20de%20ferro.jpg
sexta-feira, 16 de maio de 2008
CORPUS 1
percebe a força da carne,
sente o ruído estrondoso do sangue!
conquista a forma perfeita
de cada músculo tracejado,
as víceras bem ordenadas
e a opulência da forma rija
de cada membro de teu corpo.
tateia no teu ventre a perfeição
gutural que incide sobre a fibra
de energia, beleza, vitalidade.
faz observar teus pés
sente o poder de cada passo
a retumbar no universo
com estrondo divino ao pisar o solo,
sente o poder incontestável: anda!
torna a pisar como se fosse um deus
com segurança e força,
dos pés às pernas tuas.
pega com firmeza descuidada
com as pontas dos dedos
cada centímetro puro de tua área
indelével, nos teus ossos, como na pele,
elege a forma perfeita do braço,
das coxas, dos ombros: a forma sua!
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imagem: http://www.zipt.com/images/body.jpg
CORPUS 2
desde os seus olhos e boca
até as costas, e desce...
displicentemente.
renda-se ao fogo amável
que sobe pelas pernas
lambendo-lhe a virilha,
tocando-lhe o sexo...
revela teu desejo!
enaltece-te! venera-te!
arde-te! consome-te!
consuma-se!
renda-te ao menos uma vez
ao teu prazer aprisionado
mais primitivo, repudiável, lancinante!
lamba-se os dedos e os lábios.
toca sem mesura, com carinho,
com esse amor tão sujo
cada parte dessa pele que te limita
cada sensação, a mais escondida.
toma proveito da primazia do corpo ilimitado
que só se encontra no teu desejo imediato.
toca tua silhueta,
amamenta-te e deleita
cada segundo de sua vontade.
ama-te!
esbelto e pleno,
belo enquanto puro,
e forte e inteiro.
CORPUS 3
o amor próprio resgatado
e foge!
corre das cidades, dos outros,
de ti mesmo, do tempo.
pois quando o espelho alcançar-te
muito antes do desejado
pouco antes do esquecido,
do teu corpo tu há de sentir
apenas a falta...
decairás!... aos poucos.
e se convencerás do contrário.
mas na certezado engano,
até negar-se a ti mesmo, enfim.
ama-te agora
pois que no futuro não distante
terá perdido tua face,
teu vigor, tua forma.
mirrarás na pele e na vontade.
e cairás por terra,
e serás terra
e nada mais
nem ti.
CORPUS 4
amei luzia como se amasse a mim
luzia luziu, reluziu, brilhou, sumiu
fiquei em luzia, me perdi de mim
ao acaso ando, sem face, sem luz
pois nem a vida sem luzia me seduz
devagar esmorecerei no esquecimento
e meu corpo se apagará n vento
até que em luzia eu volte a mim,
quando eu for consumido pelo tempo
no momento eterno do meu fim.
não amais no mundo alma segunda!
pois só lhe há de trazer sofrimento
e tudo, depois de prazer, será lamento
nada que não a causa de dor profunda.
conduz teu amor a ti - creia, te basta!
do contrário encontrarás pena nefasta
na beira da morte do ente querido
só uma parte de tu'alma irás consigo
e quebrantado viverás, sem abrigo,
o próprio amor negarás, te digo!
amor não é essa coisa que prospera
pois eis que após o amor, reina a espera.
ó amor, se vais, mata-me contigo
não me abandona na espera sem sentido.
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imagem: http://www.nrfoto.no/03art/artgallery/pages/body_01.htm
CORPUS 5
há somente uma pena ritmada
vazio e nada e vazio e nada e vazio
mas se escuta ainda um canto pio
tudo oculto tudo oculta tudo tido oculto
que reina acima nessa hora sagrada
nada e tudo oculto no vazio é revelado...
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imagem: http://images.artnet.com/images_US/magazine/news/artmarketwatch/artmarketwatch5-15-3.jpg
Piotr Uklanski, Untitled (Skull) 1999
CORPUS 6
nada me perturba, nesse canto de jardim.
pouca coisa ou nada me incomoda
- nada sobra, senão um pouco de tédio,
nada falta, senão um pouco de desejo.
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imagem:http://www.antiques.dk.com/assets/420/10357149.JPG
Emile Albert Gruppe (1896-1978) - Nude at Forest's Edge
CORPUS 7
Lá na terra onde todos estão
meio perdidos, como grãos
num grande galinheiro.
Papai do céu, não me lava a mal
mas é que sinto falta de agito
do corpo que roda, sofrido
e amado, caído qual pião.
Papai do céu, não se aborrece
lembra que eu faço boa parece
não me esqueço do senhor, não.
Papai do céu, vê se me nasce!
pois aqui há perfeito amor e enlace
mas meu peito sente falta de paixão.
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imagem: http://hesperia.canalblog.com/albums/etudes_de_leonard_de_vinci/m-Etude_d_enfant.jpg
Leonardo da Vinci - "Etude d'enfant"
quinta-feira, 15 de maio de 2008
do ex-aprendiz

- a novidade: não sou eu.
não sou poeta, se de fato este não o for.
pois se é que eu sinto dor,
ele a tudo e tudo e todos interpela.
foi parido pelo mundo poeta maior
poeta que não é só de vento
é carne e osso e pó e nó e dó
e ré e mi e fá e só lá si dá
com tudo que há para se versar.
filho, de versos roubados, alheios, ocultados:
toma para ti todas as palavras!
toma até minh'alma, se for de préstimo.
mas se essa não é de nunhum acréssimo,
devolve-a, para eu rendê-la aos vossos versos.
estou feliz, de fato: rio como quem é superado.
----
*pro rafael
sábado, 26 de abril de 2008
da crítica - n°1 [o problema do mundo I]
da simplicidade do universo
sábado, 5 de abril de 2008
apesar das aparências
my happy ending
no consultório psiquiátrico
terça-feira, 25 de março de 2008
carta n° 1 [de auto-piedade]
talvez com essas palavras tão emprestadas e gerais, de algum modo tosco e imaturo, meu coração deverasmente chora-deschorando, chora arrependido e humilhado, escondido, sem mais sequer dizer palavra própria. escusando-se a uma palavra tão estrangeira dele mesmo, que ao encontrar-se de fronte delas ele, assustado, sorri até, reconfortado por não ser responsabilidade de ele pensá-las e possa simplesmente cuspi-las - como a boca joga fora uma bala doce (ou seria azeda?)... mas depois se arrependesse de vê-la descartada, jogada como fosse sua palavra à exposição pública.
me reconforto pela autenticidade do sentimento, talvez. ou talvez me martirizo pelo desconcerto dessa coisa tão fora de mim e tão minha. pois no fundo sei que a dor brotara tão desarvorada que não me deixara clareza ou palavra pura, sendo mais real que muita dor que por aí anda vadia.
e num suspiro de renuncia, súplica, refúgio e desjuízo, me desprendo do meu orgulho, num jargão aborrecido - e nunca tão profundo:
"tenho saudades de mim."
__
imagem:http://www.majarti.blogger.com.br/Solidao.jpg
sexta-feira, 14 de março de 2008
adivinho
fluxos
essa besteira, inteiramente,
é meu fluxo de consciência
inconstante, inconsciente.
se restringe a um bote
- qual serpente -
à efemeridade rouca
da minha voz inconsequente.
passa dia pós semana
conquistando império
(ausente)
de casas vazias
- qual romano -
com palavras gregas
instransigentes
esquecidas nas portas
de-batentes.
é fluxo de rio que bate
no mar gigante
e some, exaspera, transborda
num oceano titânico
indiferente.
__
imagem: http://members.optusnet.com.au/aquatichabitats/sepik_river.jpg
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
a imagem irrefletida (ou o espelho esquecido)
sou fruto do acaso e da luta
e do medo, d' alvura, da lama
sou aquilo que clama
numa oração profunda
e mal acabada por tudo que
suspenso no momento
me escapa
sou a colheita impreterida
pretérita, insuficiente,
da carne-viva e desnutrida
sou o verme no ventre defunto
alimento da morte displicente
e tudo que te falta n' ausência da hora
sou a marca vermelha de exílio
que cada homem carrega, em chaga,
no peito suprimida por todo terror
que ronda o sonho, e enegrece a vida
escritura
acabada criatura,
para que o seu destino
inerte se complete.
escreve e ora, filho do céu
pois a vida vai além da cama
e muito além do passo final
e torto de cada homem.
escreve e chora, filho das águas
para que o pranto vaporoso
pelo vento te eleve em parte,
para algo além do medo.
escreve, esquece... vá embora
que de linhas tortas já se bastam
aquelas maiores e invisíveis,
escritas e esquecidas por Deus.
sábado, 26 de janeiro de 2008
santidades
taciturno, carrancudo, áspero,recluso, casulo de prata e sal...
como te adoro, nesses dias,
minha pequena solidão!
me abastece e me bastarda
dessa pequena e alegre agonia
eu, teu filho santo e sacro, estou perdido
em algum canto da cama de dossel.
o quarto parece imenso como o silêncio
que se propaga sobre as montanhas roxas
de luto eterno pelo Nosso Senhor
nascido de rocha e madeira
o silêncio parece pequeno
quando comparado a palavras
tão minhas quanto vazias
de insenso e oblação
__
foto: http://www.photografos.com.br/exibirfoto.asp?id=56069
Ser Mão - Marcelo Lelis (15/04/2006)
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
nota de falecimento
vovó, cambaleou. seu corpo fraco
quase não era corpo, era alma pura.
ela de corpo mirrado, de feições já corroídas
pelas longas esperas dessa vida...
espera um reencontro - mais um.
vovó não é feita de carne.
se fosse, tinha desmanchado hoje.
aquilo é pedra bruta.
mas que não se esqueça:
pedra também chora
e quando chora, sempre brota um rio.
------
vô, desculpa a distância, e a falta de uma despedida.
mas o que fazer se o senhor parte de surpresa, de um dia pro outro, sem dar explicação nenhuma? talvez não seja das perdas a mais cruel, cê foi um grande cara, grande exemplo. família grande criada na base do cimento e tijolo, por longo tempo.
lembra que vó te ensinou a escrever dereitinho? você já foi tão jovem... como eu.
dominó todo dia, lembra? lembra e guarda: cê era o melhor (pau a pau com vovó).
lembra daí que daqui eu também me lembrarei sempre do sorriso de dentadura, o chinelo velho, a faca de picar tabaco, o carinho, a ternura...
chorar, dizem, é até bom. mas acho que devia mesmo era bater palmas, cara com a maior raça que eu já conheci.
abraço. fica em paz. sentiremos saudade.
até qualquer dia.
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
da penumbra
silenciosamente alçados nas montanhas.
algo há de irromper no horizonte.
algo que não aquece, não conduz
como a luz que se havia de antanho.
as estrelas estremecem e a terra desaba.
quê corre no céu com tamanho fulgor e volúpia?
há um toque de desejo desavisado
que fere o sangue e torpe se insinua.
a lua branca há de romper aurora?
não é a lua. mas como brilha essa tua hora?
será que se lançou na meia-noite?
perdeu o príncipe, o sapato, a cabeça?
perdeu o senso e o sono no tempo
onde jazem as flores do campo?
a noite é inteira taverna e manjedoura.
cativando penumbras ardentes de sonho
e impudentes de injúrias, na alcova.
um cisco risca o teto medonho e escuro.
pontua uma claridade distante e some...
a passo largo, leva embora o acaso e a esperança.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
mutuo
é, pois, a hora morta de viver
tocar a chama do mundo
morder a carne da verdade crua.
tempo, não me prende agora!
e alonga também um pouco essa tarde
que se despede calidamente
no azul enegrecido do horizonte.
amor, sentindo toda tua pele nua
arrepiada de segredos sujos
toco seu desejo com zelo impensado
e calo o pudor que em tua alma ardia.
hoje sou aquilo enquanto chuva, fogo, pedra,
tempestade que se perde e alastra
devastando as juras mais imprudentes
e até mesmo, aquelas outras, as mais puras.
solubilidades
idade
indis
tinta nessa tarde ma
cia,
luza mare
lada d
o tempo con
some
até o po
nto
a
final
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
do que se transforma
as pernas, os suspiros, o sexo.
tudo solto e desenfreado,
tão natural como o caos.
nunca se guarda uma certeza
por menor que seja
que uma leve brisa de aprazo
não despele e cauterize,
como ferida e cura.
o mundo, pode ser que
com um pequeno pensamento
catalise.
e se (te) transforme
invariavelmente,
numa alucinação
luminosa.
sábado, 20 de outubro de 2007
acolhida
desse meu verbo vagabundo
que eu espalho na noite, moribundo.
ele é cão amansado pelo tempo:
já não morde, já não ladra.
- letra, há penas.
entra, doutor, que a casa é rua.
toma todas as minhas filhas, essas putas
palavras perdidas das linhas certas
que se vendem pelo preço menor,
e abençoam pequenos pecadores.
toma, sinhá, meu sangue nessa travessa.
não repara não, que ele tá manchando
tua prata, tão cara.
mas sai logo, não fica.
carece só um muncado d'água.
repara não, esse fiapo que restou,
essa minha figura pouca e sequíssima
como a peste que alastra.
esses meus pés baços de vento
se movem só na poesia.
logo passam, não param nunca
nos olhos de pessoa nenhuma.
viu que eu já me fui?
sou passado dos seus olhos.
uma lágrima? um escárnio?
um sorriso, talves?
sou nenhum, nem outro:
sou uma breve miragem.
nunca lugar - nem mesmo um.
sou todo passagem.
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
entregas - desintegras
todo um sol, rebentando núvens,
quando enlaçamos nossos sorrisos.
quando estou em sua companhia.
sempre levanta uma brisa no peito
fazendo dessa vida inteira alegria.
saberiam lá os pássaros mais jovens
o quão grande era nossa liberdade?
quão alto voavam nossos sonhos?
mas é que sempre vem a noite
sorrateira, confundir os passos.
desatando, num instante, dois caminhos.
seus cabelos, despedindo-se ao vento,
dançavam à beira-mar. cada pegada
cravada na areia setencia a distância.
não sabia eu que era tudo erro,
mal percebia o engano custoso
que construíra com o tempo:
me abandonei em teus braços.
teus braços me abandoram
no esquecimento.
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
a transubstância
é a matéria dos sonhos desfeitos
é essa parede branca
a resvalar todo esquecimento
é essa lua branda
a expurgar todos os defeitos
é essa palavra fria
a lacerar todo sentimento
é essa pessoa fina
a vagar curso incerto
essa lágrima amarga - e clara
como pesadelo mais vivo
que suavemente apaga o sorriso
e docemente dança no meu rosto
retrata tudo que é imperfeito
essa gota de esclarecimento
e é o bem mais sólido que tenho
nesse paço imenso, nessa vida e devaneio
essa lágrima clara, em suma,
sou eu revelado e inteiro
dobrado sob um peso imenso
de um sonho, uma gota, um espelho
-----
a lágrima
é enfim isso que ensina
o fim e a sina
domingo, 9 de setembro de 2007
cala calamidades
que você não disse.
desculpa essa pressa,
que torna tudo tão curto.
me absolve esse devaneio
louco que nunca quis te revelar
e esses traços na parede
que não te deixei riscar.
não me julga pela pedra
que eu joguei pro ar
e caiu nas suas costas
pra tu sozinho carregar.
lamento tantas horas que engoli
no tédio insuportável de te esperar
- afinal, como esperar por ti
que sempre carreguei no meu olhar?
lembro dessa falta de sentido
que nunca permiti
e essa tanta desmesura
que sempre infligi.
olha esse poder grande
que eu sempre tive:
de calar o universo
daquilo que eu nunca proferi.
perdoa, minh'alma,
essa minha tão tola criatura
que no defeito te reflete
impura
nesse mundo avesso
do outro lado do espelho
em que o silêncio te espanta
e me mata.
------
*foi, sei, tola a tentativa
tentar te calar pra suprimir a dor.
tudo fica pior quando não te digo
sussurrando no ouvido
tudo isso quanto for
misto de calor e frio
a vagar no meu mundo
no meu corpo à fora.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
dos deveres
em que o choro pesa,
quando a alma pede clemência
e se perde do peito pio.
deve ser assim que se sente
quando se afoga e agoniza,
erra em tudo aquilo que se tente,
e tudo mais e pouco se esvazia.
deve ser assim no meio de tudo,
quando se perde a calma,
que o medo toma conta
e a esperança vai embora.
deve ser assim que sempre é
deve ser assim porque é preciso
deve ser assim o sentimento do mundo
conciso e confuso no vidro.
deve ser assim que na verdade
sempre me sinto, na vontade
de achar resposta alguma
pra tudo quanto dessentido.
deve ser assim... tormento.
deve ser assim, tortura
a espera da espera pura
que se espanta a todo momento.
para que tudo se consuma
e para que tudo mude
deve ser assim
e assim deve ser
eu sempre
um passo a mais
longe de mim.
__
imagem: http://centelhasdeinfinito.blogs.sapo.pt/arquivo/pegadas%20na%20areia%202.jpg
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
íris decaída
meu olhar me despe:
pecador arrependido.
meu olhar se perde:
pensador perdido.
meu olhar permuta
toda dor em fantasia.
meu olhar pergunta:
ainda há alguma ferida?
meu olhar impera
sobre os corpos na rua.
meu olhar persegue
meus anseios terríveis.
e a alma cega grita
palavras invisíveis
que fogem inteiras
ao meu olhar – risível.
e o meu olhar, então,
escondido, irrevelado,
na medida dessa hora
imensa, se despede.
----
*aos meus olhos covardes,
e prepotentes...
sonhadoramente fechados.
foto:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/images/1431_storm/5142525_storm12.jpg
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
cem poesias
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
das verdades (ou da nudez)

um tanto quanto arrependidas
vaidosas e vadias.
perdidas.
minhas verdades morrem de silêncio
um tanto quanto esquecidas
vaporosas e arredias.
inafiançáveis.
minhas verdades caem de vazias
um tanto quanto erradas
sonhadas e iludidas.
irrealizadas.
minhas verdades tortas...
minhas mentiras.
eu inteiro torto e perdido,
encontrado do avesso
nessas verdades nuas.
segunda-feira, 23 de julho de 2007
dor
tem um quê ausente
que em tudo andava antes.
que era aquilo?
que espera...
amargo e longo momento.
minhas palavras de brilhantes,
quando em pouco as perdi?
----
...a poesia não é remédio, como eu achava que era antes...
terça-feira, 17 de julho de 2007
pedraria

que se ergueu em plena madrugada?
foi construída com laço de sangue
em segredo pela aurora fria.
o sol que brota, não mais da montanha,
mas da muralha sombria,
tudo separa e tudo aponta
revelando podre a verdade fina.
suas pedras, seus lamentos,
sua concreta harmonia dissonante e seca,
tudo em volta e dentro da parede
que bota sede na alma sadia.
saciaria alma, se pudesse,
mas alma de pedra não fala
por trás da parede
-esquife eterno de solidão.
amor, viu a última grande muralha?
não se preocupe, não procure, amor.
a muralha não está no horizonte.
-----
andar com teu peso, que tua arma e arremesso
presos no peito, dilacera todo e qualquer sonho.
sai de mim, já não te quero, excedente
peso frio dos meus mortos amigos e amores.
quero de novo meu corpo-pedra
que se não amava, não cantava,
mas também não chorava, não gemia
no sorriso algoz dessa vida.
----
sexta-feira, 29 de junho de 2007
senti-sinestésico-icídio
vejo em tudo sinfonia calada, que se apregoa pelo espaço a fora. e dentro de mim o barulho que quer irromper o tédio, a palavra desvairada que precisa criar, o vício insaciável de escrever nas paredes brancas dessa vida pra ver se encontro na cor da letra o des-sentido da vida.
escrevo para vazar, pra me derramar inteiro nos teus olhos.
até que finalmente me olhe e eu vire idéia ou lembrança.
escrevo porque meu retrato é ransoso e não se satisfaz com o meu sorriso. ele não me tem. é retrato de céu, de árvore, de grama, de criança, de velho, de tarde, de hora, de praça, de mar, de estrela, janela, areia, água de rio e chuva...
e viver, parece que eu percebo, é uma doce vertigem. o des-sentido só, sem motivo, sem razão, sem compromisso: marivilhoso des-sentido, essa não-prisão, essa desnecessidade, esse não-tempo, essa eternidade...
voz sumida a minha.
sumida do mundo: fala ela... ninguém escuta.
diz com a mão, o toque, o calor em mim.
e é prazer e dor tão grande, que parece que vou romper, me rasgar, trucidar-me, acabar, explodir, sumir...
mas nunca, nunca, nunca, nunca morrer.
porque é explosão que ecoa e nunca morre, se debate para sempre nas paredes do quarto fechado.
suspensão
meu rosto não aparece em fotos
meu cheiro sumiu no instante
minha pele apodreceu negra
a alma perece aos poucos
e canta enquanto se desfaz
em doses homeopáticas
milimétricas e sem rima
não existe som no vazio
não existe luz dentro da carne
no cerne do universo
tudo cintila somente
lamuriosamente
como prestes a acabar.
não existe pergunta que não se cale
perante o segundo que se encerra
atrás das véias saltadas dos prédios
das pontes, dos telhados, das contruções.
a orquestra suspensa dos sonhos
sempre fingindo que tudo sabem
espertos que são.
mas no salto tudo voa, desprende,
esvaece
não resta ao menos o ponto
até que o poema toque o chão
.
quinta-feira, 21 de junho de 2007
onírico
caminhar com pés de núvem.
respirar a brisa púrpura
e sangrar o sorriso branco.
sonhar pra escapar da dor
sonhar pra catar a flor da vida
sonhar para surgir a dúvida
sonhar pra semear poesia.
cantar pra dizer o sonho
com o espírito rouco,
e na virada da quina da hora
pra distrair o tempo pouco.
sim, sonhar!
blasfemar a verdade cinza
navegar esperanças
quebrar barreiras de vento.
sonhar e acordar
para não se perder,
para frasear,
fazer o ponto,
e montar a reticência
que se estende aguda
e segue aflita na espera
de suspender o pé do homem.
quarta-feira, 13 de junho de 2007
totalidades
o tudo é parte alguma.
todo o tudo é cada parte,
que leva do nada à solução
nenhuma.
se, contudo, tudo é cada coisa,
tal é como se tudo fosse uma:
uma coisa meia certa,
meia parte, meio oculta.
tudo é um pouco nada,
- e nada adianta isso tudo:
tem ainda todo um resto
de parte, numa outra metade.
nunca tudo é tão distante
de tudo, em instante.
sempre e longe, de tão perto,
tudo oco e o todo nada.
terça-feira, 12 de junho de 2007
semi-obituário

pelo meu sensível e insensato silêncio.
volto aqui com a certeza
que não tenho mais,
de que o sol quebrará por certo
a treva errônea dos meus medos.
é que cá tenho o lirismo meio esfrangalhado,
doente terminal de mim mesmo.
doente de alergia, de abandono,
de tédio e de clausura.
e por fim, constado é, senhores,
o mal que consome:
eis que tudo me agoniza
pela falência múltipla
dos sonhos (findouros).
----
ele agonizava e não entendia, porque não queria entender. até que um belo e terrível dia, teve coragem: olhou no espelho. viu a si mesmo, tal como era, tal como fora, tal como, na verdade, sempre seria. indignou-se, botou o pé no teto do rancor, afogou-se. depois chorou. depois cansou. reergueu-se, mais fino e mais pálido do nunca. tacou muito dignamente a pedra no espelho: partiram-se ambos, tal como ele esperava, o espelho e a alma. virou de costas, retirou-se de si mesmo. foi modelar-se, ele sabe onde, num futuro não sei quando, com a mão trêmula de incertezas, caminhando com os pés firmes e podres, enraizados no chão.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
brevidades
e a minha vontade de vidro.
nunca sei se fico inteiro
nesse fio de voz fina,
que se espelha no espaço.
eis o meu sussurro itinerante
que sempre se perde no instante
e no tempo transita mágoas,
poemas e alegrias pálidos.
jaz aqui meu sopro ausente
que some tarde da noite,
no meio do dia,
entre o desespero
e o esquecimento.
está aqui o que eu era,
o que sempre erra na vida
e no sonho prospera
- esse sonho que finda.
eis-me em chamas consumido.
da memória do mundo, perdido.
inevitavelmente, eis que daqui me parto
ainda que, deveras, nunca tenha chegado.
terça-feira, 22 de maio de 2007
irracional e irresoluto
tenho asco. tenho sede. tenho saudade. tenho medo.
não tenho força (e, sim, como me dói constatá-lo, sou fraco e patético).
não me tenho, não mais, pelo menos.
a chama que antes me aquecia cálida, está bruxuleante, como em vendaval mortífero: a chama balança louca desvairada e insana, quer sumir.
a razão, que já perdi há tempos, dela me esqueci...
...
não tem mais nada que vale a pena dizer, por enquanto dure essa merda de nó na garganta da alma podre.
no mais tenho vontades, nada mais.
*desesperadamente deprimido e inquieto.
sábado, 21 de abril de 2007
uma canção por fazer
que na aurora dourada fez moradia;
das carícias dum Sol profundo se fez,
e nas noites de prata ele ardia.
um sonho de cantar toda e cada nota
em cada espaço de espanto que ouvesse
no tempo da vida suave.
soaria o sonho em cada e toda esquina
de vento que leve mais longe o encanto
até pro menino da calçada ao relento
até nos berços eternos, as covas,
ou os berçários e os varais e os jardins.
e nas tardes carmins, sem demora,
põe-se o sonho a tocar os lábios
na sabida e ávida face da distância,
que se deita macia, e me faz te encontrar.
e o sonho de cantar alto, de lembrar cada letra
da qual me esqueci, sem nunca ter escutado antes
tal quão doce melodia.
vontade de criar músicas do nada,
da poeira fugidía dos dias,
pra embalar em calmaria
toda essa profuzão de sentimentos
e sentidos confusos.
uma música que bastava ser um assobio,
um sopro, fagulha de alma e sonho,
-a saber, uma letra incontida e criança,
recém desperta no peito do homem só.
uma canção a se fazer no meio do seio da vida
com calma vadia de se escorregar e correr
nos parques e nas curvas do destino.
um tom brando e macio, marcado ao passos
que ressoam nas paredes brancas,
o coração que salta em pulsos cândidos,
enlouquecido pra cantar.
---
o sol bate na janela, e alaranja e enche o quarto inteiro, inclusive o olhar e o sorriso. tô com vontade de cantar... mas sem letra, com calma, sem pressa, suave... quero cantar, mesmo que desafinado, uma vida inteira de sonhos e brisas.
escuto música nos seus movimentos macios, e nos seus cabelos, no seu perfume...
amor já é alegria e canto que me basta....
domingo, 15 de abril de 2007
pro doce olhar duma menina
arrebentei meu peito à sua porta
só pra ver se você se importa...
nessa coisa besta de contar o tempo
me perdi nas horas dos seus lábios
e nada além disso me devora mais...
corro entre o vento e o seu vestido
brincado de carícia com seu veneno
que me mata na felicidade, alento.
nessa plenitude dessa tarde
já aparece tempestade
mas me embriago das ondas
do seu doce mar-amar...
ê, vida cansada no peito de tanto pulsar.
corro entre os morros do nosso leito.
nunca canso de te esperar.
e se é alta a lua ou a hora
que não seja a última a chegar
pra nós dois a alegria desse olhar.
o seu doce toque, meu suor de amor.
juntos nessa tarde, crianças ao tempo
da inocência nua dum brincar.
e já não é sem tempo,
que me arrebata o canto:
para sempre nessa tarde,
sempre e terno, amar você.
------
"que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure..."
Vinícius de Moraes
quarta-feira, 11 de abril de 2007
vespertinar
respira brancura espelhada
na água do céu,
rio azul de ponta-cabeça.
de noite, à cima, precipício,
princípio e fim
no vazio estrelado.
os anjos quedam
sem o chão de céu.
sem asas, nem nada...
terça-feira, 10 de abril de 2007
terça-feira, 3 de abril de 2007
despedida incontida
são puros e agora lhe entrego
o poema de sangue rubro
e branco de paz eternecida.
na clareza santa da espera,
essa pútrida mansão dos sonhos,
me despedaço em tom macio
com o toque leve que teu olhar me dera.
não vejo mais, embriagado
em desatino, a distância
tão próxima desse meu horizonte,
que plácido deita-se - a oeste.
é com teu olho d'água
que na noite enxergo,
prevendo as madrugadas
a galgarem os montes.
é com teu olho fechado
que em sono profetizo
o som que há de romper
a aurora:
alma vazia a acorrer socorro.
mas seu esplendor divino
gozava calmaria leve.
calava-se o espírito
(por hora breve)
tão definitiva calmaria
inigualavelmente ardia
invejavelmente sonhava
em tal eternidade dormia
na vaguidão do destino
nunca outra aurora haveria
nunca mais a espera
nunca e sempre, tardia.
os versos que outrora tecia
agora - tão tarde - lhe entrego
na carta de sangue e espera
na noite que não me sorria.
--
pro Bruno
segunda-feira, 2 de abril de 2007
infanticida
faz um tempo,
que o sonho me sorriu.
seus olhos infatis
lembravam-me...
ainda lembro
de mim?
na tortura do tempo
torto:
nu, como sempre fora,
eu nesse momento.
nu e pequenino
menino sonhador
e demente.
desde quando
sei de tudo?
desde de sempre
e por isso sempre desconfiava
desse fio de navalha
(sanguinária)
que é a verdade.
beijo, boa noite, adeus.
derreto-me a toda hora
buscando no sonho
a paz que a vida não deu.
domingo, 18 de março de 2007
cinzas de guerra (ou metrópole)
dum labirinto obscuro,
onde cada luz é um erro
e nunca se volta um passo.
de repente, se moviam
os corpos, incertos.
havia um desespero
no despropósito.
que se escondia
por trás dos olhos
cinzentos e vermelhos?
acaso sonhariam
outras paragens?
suspensos no universo
olhos e pés (pulsavam,
apenas) perdidos no espaço.
sábado, 17 de março de 2007
como se fosse de verdade

*foto http://membres.lycos.fr/cinephilia/hamlet/hamlet2.html
terça-feira, 13 de março de 2007
vagações
domingo, 11 de março de 2007
confissão.

sábado, 10 de março de 2007
de última hora

faz tempos que o silêncio emudeceu.
não sussurra mais meios termos
às meias noites...
nunca mais,
na imensidão dessa hora,
me soprou o vento
lástimas novas.
não cantou do poente
o sol vanglorioso em vermelho
que agonizava calmamente.
o luar serrilhou a montanha
bem ao meio, crescente.
e minguou em seguida.
sumiu - displicente.
secou nos meus olhos
o último grão de areia
da última onda da praia.
a mão tocou a falta
que se fazia indigente
aos pés da cama.
pressenti no espasmo...
...sumiste.
- ou era um sonho?
brandura nos meus braços?
foste esquiva, noite a dentro.
nada disse ao meu destino.
desiludido na escuridão
dessa certeza absoluta,
estou coberto em luto negro.
- mas ainda em vigilha te espero.
terça-feira, 20 de fevereiro de 2007
dúvida-prisma
atrás do verso
dessa folha?
---------
*me sinto estranho por esses dias...
como um menino bobo sem saber o que move as núvens, como floresce o dia ou brota a noite na janela, depois do fascínio enevoado da alvorada...
as árvores não param de sussurrar uma melodia desconhecida.
a água que flui pelos meus dedos, some antes de me dizer um motivo de qualquer coisa.
o verde da mata, que mancha meus olhos, não me trás também resposta alguma.
o vento sibila alguma profecia em menor tom... não entendo direito o que ele diz.
e a estrada, imponente, perante os meus pés tão pequeninos, me ameaça com um olhar morto.
(será que ela leva a algum lugar?)
o que andará atrás daquele monte? como posso tocar o horizonte distante, se ele sempre me escapa?
como posso eu , por Deus, querer poder alguma coisa???!!
afinal, não sei ao menos se ainda existo.
tenho muitas dúvidas nos olhos, e muitas lágrimas loucas, prestes a nunca serem derramadas.
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007
domingo, 18 de fevereiro de 2007
póstumo

peço de volta aos céus
minha alma que levou o vento
no ventre da terra jaz meu corpo
podre ao sabor do tempo.
minhas memórias corroídas
as finas retinas desalinhadas
a ausência do nunca
me toma os lábios
o peito encardido
surrado, vadio...
nada a guardar.
coração despedaçado
nem carece de abrigo.
as mãos tocam ligeiras
as nuvens de algodão
além das trevas.
nem tudo está perdido,
nada além da sanidade
ou do sentido
esvaeceu.
só não há de sumir o tédio
nem a dor, nem a saudade,
nem a vontade louca
de pular do prédio.
construção de concreto chamada vida
insensatos que são seus andares
e corredores e moradores
e suas tardes modorrentas.
há sempre um salto
por trás de cada janela.
um salto e uma queda
(eterna).
terno e para sempre
de asas abertas.
---------
*imagem:
http://fotogui.blogs.sapo.pt/arquivo/Janela-A.jpg
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
pós tu amor
de dizer te amo todo dia,
depois dessa brisa boa,
dessa alegria,
depois dos anos juntos,
um ao lado do outro,
depois da rosa em broto
que eu sempre lhe trazia,
depois dessa coragem
de ser sem-vergonha,
e de falar bobagem
e contar estrela,
depois de andar na grama
com os pés descalços,
depois de amar
na imensidão da cama,
depois de jurar
fazer feliz,
depois unir as almas
em pura ilusão...
depois de todo sonho
de toda essa brandura
a dura parede
do desencanto.
rompe a noite
a lua fria
e todo amor
vira lamento.
o canto que se cantava,
o amor que se amava,
a alma que se tocava,
tudo isso morreria.
depois de tudo,
peito em luto.
o que era mel
vira fel nas veias.
a alma agoniza,
o coração rasga
de papel,
como fora todo o resto:
o amor, o aroma,
o coração que ama,
a cama, a alma...
as cartas e os poemas.
depois de tudo,
do além de tudo,
sequidão.
sede sem fim.
o amor jaz entre a relva
sem sempre, nem diamante,
nem palavra de juramento.
o amor se vai sempre.
e sempre é o fim.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
pegadas
de felicidade?
por que voltar
de qualquer parte?
pra que desfazer o sorriso?
na verdade,
talvez não seja
a tal felicidade
o que eu preciso...
o horizonte, parece,
sempre enseja
no peito indeciso
um pouco mais de agonia.
quão vasta a jornada...
quanta treva nos caminhos...
pés palmilham estradas
nunca encontram ninho.
o horizonte que procuro
meus pés nunca hão de tocá-lo.
ele há de morrer no sonho
e na vontade...
no escuro.
cada palmo desse mundo
me leva a um muro
- beco sem saída.
caminhar, pra que isso?
os passos, parecem,
nunca dão em nada!
------
*busca não tem fim
(diferente da alegria).
quem tem fim
é o viajante
que acaba em ossada
jogada no esquecimento,
sem pés,
nem letargia,
nem poesia.
só o pó da longa estrada
- nela ele se eleva
de senhor a hóspede
de eterna morada.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
nem tudo num tampouco
nem toda tristeza é de agonia.
nem toda morte vem da luta.
nem todo amor é fantasia.
viver toda tristeza
não é morrer de fato:
vivendo-se, morre - certeza.
(seja no espera ou no ato).
viver é já mortalha
que visto sem lamento
numa louca batalha
contra o vento.
pois há de vir no vento
o tempo da tempestade
a embalar toda a cidade
em dissonante intento.
a morte há de levar
até as crianças nos braços
mas não tremo em constatar
na vida semelhante traço.
se na calma pressinto a peste
"verdade" sei que essa se chama.
velas ao leste!
quero tocar do sol a chama.
tocar, sentir queimar
antes que tudo se perca
em meio a vento e a poeira.
em meio a papel e a solidão.
pois não há cerca
pro meu descompasso,
nem mínima razão
pr'essa loucura.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
terça-feira, 16 de janeiro de 2007
orquestra sincrônica
em que o tempo me ouvia.
hoje, nada escuta.
grita
nos meus ossos.
e eles,
mudos,
obedecem.
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a vida é uma orquestra
sincronicamente armada
até os dentes
de agulhas.
essas agulhas se chamam
segundos.
furtividade
a testa pulsando na palma
a testa pulsando na alma
a alma pulsando sem calma
a terra ruminando a lama
a lama suja da mão
nem a cama eterna
aponta a solução
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OBS:
quisera eu ser criador autêntico de tamanho paradigma...
na verdade o primeiro verso, creio, roubei de Cecília (Meireles)
espero que me perdoe teu espírito sublimado
maculada que foi sua arte.
ser poeta
e todo gozo dobra
perante o peso da alvorada.
daí que todo sol lacera mais a pele
e todo o sal
resseca a alma.
daí que não se tem mais nada
que não seja o papel
de seguir poeira afora
nas veias dos versos.
daí que a noite frígida
agita a calma
e posto em branco o ponto
tudo pode o negro
logro pouco da pena cansada.
e daí que resfestela
o meu ventre
ao ver a morte de frente
e a vida de costas.
daí que tudo mais
que não seja mais que dor
não me basta
não me consome como quero.
daí que sempre é nunca
nuca fria de perder o riso
e cada vez mais
se olhar no espelho
arranca do olho um cisco.
e eis ainda, que, daí
tudo posso
pois tudo fasso
com uma única falha
- a pena na mão.
segunda-feira, 15 de janeiro de 2007
onírico
todo sonho é passível de existência
(e de toda dúvida)...
que o caminho faça-se sereno
em meio a tempestade.
domingo, 14 de janeiro de 2007
sorte do dia
o raiar desse dia,
existe o refúgio supremo
de sublime alegria:
a tumba esquecida
do cárcere acolchoado,
o travesseiro eterno
que resvala o sono
em baixo da terra.
os astros louvam de verdade
somente os moribundos.
terça-feira, 9 de janeiro de 2007
covardia
nem tua cara de malícia.
sei que no fundo, maldito,
tremes à vergonha de viver.
não me chora o teu olho
nem bendiz tua língua
a bem da verdade.
tua alma nua é que assoma
vermelha o teu sangue.
a sucumbir tua vida
prefere qualquer máscara
todo passa-tempo.
sei que maldizes a hora
de se olhar no espelho.
tem medo de encontrar nele
o demônio
ou o vulto desfalecido
dos seus desejos.
maldito covarde
que não logra partir
nem ficar.
prefere morrer,
trucidar,
matar.
tudo para não ver
a falha em que sucumbe
tua alma.
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maior covardia é rejeitar a si mesmo. esconder-se, mutilar-se...
seria eu o maior covarde?
segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
passa tempo
- louco dizia ser de paz.
mas com uma batida
virou o mundo.
os homens de ponta-cabeças,
mulheres de saia pra cima,
as rosas desgerminavam
uma dança que nunca termina...
e tudo dizia o sino
do alto da igreja
- a senhoria morta ao batizado,
o elipse, eclipse, apocalípse...
lapso!
o poeta, sim, amanheceu
louco
pra dizer tudo que queria,
pra cantar tudo que ouvia,
pra calar a tudo no ponto,
pra morrer assim,
feito chuva que estia.
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mas as curvas que traçou
essa ficarão
na terra entrevada
pra enlouquecer
ainda e mais
os meninos da lua

