sexta-feira, 16 de maio de 2008

CORPUS 5

V - da morte
do que se fez não há mais nada
tudo é vazio é tudo é vazio é tudo
há somente uma pena ritmada
vazio e nada e vazio e nada e vazio
mas se escuta ainda um canto pio
tudo oculto tudo oculta tudo tido oculto
que reina acima nessa hora sagrada
nada e tudo oculto no vazio é revelado...
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imagem: http://images.artnet.com/images_US/magazine/news/artmarketwatch/artmarketwatch5-15-3.jpg
Piotr Uklanski, Untitled (Skull) 1999

CORPUS 6

VI - do além
plenitude joga teus raios sobre mim!
nada me perturba, nesse canto de jardim.
pouca coisa ou nada me incomoda
- nada sobra, senão um pouco de tédio,
nada falta, senão um pouco de desejo.
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imagem:http://www.antiques.dk.com/assets/420/10357149.JPG
Emile Albert Gruppe (1896-1978) - Nude at Forest's Edge

CORPUS 7

VII - da encarnação
Papai do céu, me põe no chão!
Lá na terra onde todos estão
meio perdidos, como grãos
num grande galinheiro.

Papai do céu, não me lava a mal
mas é que sinto falta de agito
do corpo que roda, sofrido
e amado, caído qual pião.

Papai do céu, não se aborrece
lembra que eu faço boa parece
não me esqueço do senhor, não.

Papai do céu, vê se me nasce!
pois aqui há perfeito amor e enlace
mas meu peito sente falta de paixão.
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imagem: http://hesperia.canalblog.com/albums/etudes_de_leonard_de_vinci/m-Etude_d_enfant.jpg
Leonardo da Vinci - "Etude d'enfant"

quinta-feira, 15 de maio de 2008

do ex-aprendiz



decláro-vos, hoje lhes nasceu um poeta!
- a novidade: não sou eu.
não sou poeta, se de fato este não o for.
pois se é que eu sinto dor,
ele a tudo e tudo e todos interpela.

foi parido pelo mundo poeta maior
poeta que não é só de vento
é carne e osso e pó e nó e dó
e ré e mi e fá e só lá si dá
com tudo que há para se versar.

filho, de versos roubados, alheios, ocultados:
toma para ti todas as palavras!
toma até minh'alma, se for de préstimo.

mas se essa não é de nunhum acréssimo,
devolve-a, para eu rendê-la aos vossos versos.

estou feliz, de fato: rio como quem é superado.

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*pro rafael
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Boy Writing (White Bonded Marble)

sábado, 26 de abril de 2008

da crítica - n°1 [o problema do mundo I]


meu filho
que não é meu
olhou no meu olho
já sem a vida
que eu lhe neguei
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*há momentos que não se deveria perturbar a imagem, viceral e aterradora como só ela, com a palavra mesquinha e pequena. mas é porque algo me dá voltas no estômago que fica meio impossível não vomitar algum verso.
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da simplicidade do universo


criancinha andando com papai:
ai, acho que tropecei num planeta!

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imagem: http://spaceflightnow.com/news/n0010/01darkmatter/001001universe.jpg

sábado, 5 de abril de 2008

apesar das aparências

por menos que pareça
(nas linhas erradas escritas)
sou eu feliz que escrevo,
rasgando a flor púrpura
da animosidade celeste
num deboche agridoce
à minha vã personalidade
- infame e intermitente.
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imagem: http://www.telefonodelaesperanza.org/img/uploaded/noticias/mascarasteatro.gif

my happy ending

que se perceba
em análise sincera:
viver bem é procurar
a sircunstância adequada
para morrer melhor.
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imagem: http://www.organic-city.com/apple.jpg/apple-full.jpg

no consultório psiquiátrico

distúbios psicóticos
depressivos,
ansiedade
neurotrasmissora,
hipnose anciolítica,

etc
e ECT

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*PS:
ECT = Eletroconvulsoterapia
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imagem: http://www.humornaciencia.com.br/biologia/cadeira-eletrica.jpg

terça-feira, 25 de março de 2008

carta n° 1 [de auto-piedade]

não importa o quão piegas isso possa soar, ou melodramático e auto-piedoso; sei que sentimentos como esses subsistem na escolha de cada palavra.
talvez com essas palavras tão emprestadas e gerais, de algum modo tosco e imaturo, meu coração deverasmente chora-deschorando, chora arrependido e humilhado, escondido, sem mais sequer dizer palavra própria. escusando-se a uma palavra tão estrangeira dele mesmo, que ao encontrar-se de fronte delas ele, assustado, sorri até, reconfortado por não ser responsabilidade de ele pensá-las e possa simplesmente cuspi-las - como a boca joga fora uma bala doce (ou seria azeda?)... mas depois se arrependesse de vê-la descartada, jogada como fosse sua palavra à exposição pública.
me reconforto pela autenticidade do sentimento, talvez. ou talvez me martirizo pelo desconcerto dessa coisa tão fora de mim e tão minha. pois no fundo sei que a dor brotara tão desarvorada que não me deixara clareza ou palavra pura, sendo mais real que muita dor que por aí anda vadia.
e num suspiro de renuncia, súplica, refúgio e desjuízo, me desprendo do meu orgulho, num jargão aborrecido - e nunca tão profundo:

"tenho saudades de mim."

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imagem:http://www.majarti.blogger.com.br/Solidao.jpg

sexta-feira, 14 de março de 2008

adivinho

o futuro é um porto,
em meio à névoa opaca e densa,
feito de mera miragem
e ausência.
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imagem:http://imagecache2.allposters.com/images/ARIPOD/40061245_b.jpg
Camille Pissaro, 1888. A Ilha Lacroix,Rouen. Efeito de Neblina.

fluxos


essa besteira, inteiramente,
é meu fluxo de consciência
inconstante, inconsciente.
se restringe a um bote
- qual serpente -
à efemeridade rouca
da minha voz inconsequente.
passa dia pós semana
conquistando império
(ausente)
de casas vazias
- qual romano -
com palavras gregas
instransigentes
esquecidas nas portas
de-batentes.
é fluxo de rio que bate
no mar gigante
e some, exaspera, transborda
num oceano titânico
indiferente.
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imagem: http://members.optusnet.com.au/aquatichabitats/sepik_river.jpg

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

a imagem irrefletida (ou o espelho esquecido)

sou feito de chuva e de fogo
sou fruto do acaso e da luta
e do medo, d' alvura, da lama

sou aquilo que clama
numa oração profunda
e mal acabada por tudo que
suspenso no momento
me escapa

sou a colheita impreterida
pretérita, insuficiente,
da carne-viva e desnutrida

sou o verme no ventre defunto
alimento da morte displicente
e tudo que te falta n' ausência da hora

sou a marca vermelha de exílio
que cada homem carrega, em chaga,
no peito suprimida por todo terror
que ronda o sonho, e enegrece a vida
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René Magritte - La reproduction interdite, 1937

escritura


escreve, filho da terra
acabada criatura,
para que o seu destino
inerte se complete.

escreve e ora, filho do céu
pois a vida vai além da cama
e muito além do passo final
e torto de cada homem.

escreve e chora, filho das águas
para que o pranto vaporoso
pelo vento te eleve em parte,
para algo além do medo.

escreve, esquece... vá embora
que de linhas tortas já se bastam
aquelas maiores e invisíveis,
escritas e esquecidas por Deus.

sábado, 26 de janeiro de 2008

santidades

taciturno, carrancudo, áspero,
recluso, casulo de prata e sal...
como te adoro, nesses dias,
minha pequena solidão!

me abastece e me bastarda
dessa pequena e alegre agonia
eu, teu filho santo e sacro, estou perdido
em algum canto da cama de dossel.

o quarto parece imenso como o silêncio
que se propaga sobre as montanhas roxas
de luto eterno pelo Nosso Senhor
nascido de rocha e madeira

o silêncio parece pequeno
quando comparado a palavras
tão minhas quanto vazias
de insenso e oblação
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foto:
http://www.photografos.com.br/exibirfoto.asp?id=56069
Ser Mão - Marcelo Lelis (15/04/2006)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

nota de falecimento

vô deitou-se pra abraçar a eternidade
vovó, cambaleou. seu corpo fraco
quase não era corpo, era alma pura.

ela de corpo mirrado, de feições já corroídas
pelas longas esperas dessa vida...
espera um reencontro - mais um.

vovó não é feita de carne.
se fosse, tinha desmanchado hoje.
aquilo é pedra bruta.

mas que não se esqueça:
pedra também chora
e quando chora, sempre brota um rio.

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vô, desculpa a distância, e a falta de uma despedida.
mas o que fazer se o senhor parte de surpresa, de um dia pro outro, sem dar explicação nenhuma? talvez não seja das perdas a mais cruel, cê foi um grande cara, grande exemplo. família grande criada na base do cimento e tijolo, por longo tempo.
lembra que vó te ensinou a escrever dereitinho? você já foi tão jovem... como eu.
dominó todo dia, lembra? lembra e guarda: cê era o melhor (pau a pau com vovó).
lembra daí que daqui eu também me lembrarei sempre do sorriso de dentadura, o chinelo velho, a faca de picar tabaco, o carinho, a ternura...
chorar, dizem, é até bom. mas acho que devia mesmo era bater palmas, cara com a maior raça que eu já conheci.
abraço. fica em paz. sentiremos saudade.
até qualquer dia.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

da penumbra


a madrugada rufa em tambores
silenciosamente alçados nas montanhas.
algo há de irromper no horizonte.
algo que não aquece, não conduz
como a luz que se havia de antanho.

as estrelas estremecem e a terra desaba.
quê corre no céu com tamanho fulgor e volúpia?
há um toque de desejo desavisado
que fere o sangue e torpe se insinua.
a lua branca há de romper aurora?

não é a lua. mas como brilha essa tua hora?
será que se lançou na meia-noite?
perdeu o príncipe, o sapato, a cabeça?
perdeu o senso e o sono no tempo
onde jazem as flores do campo?

a noite é inteira taverna e manjedoura.
cativando penumbras ardentes de sonho
e impudentes de injúrias, na alcova.

um cisco risca o teto medonho e escuro.
pontua uma claridade distante e some...
a passo largo, leva embora o acaso e a esperança.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

mutuo

sonho, não me chame agora!
é, pois, a hora morta de viver
tocar a chama do mundo
morder a carne da verdade crua.

tempo, não me prende agora!
e alonga também um pouco essa tarde
que se despede calidamente
no azul enegrecido do horizonte.

amor, sentindo toda tua pele nua
arrepiada de segredos sujos
toco seu desejo com zelo impensado
e calo o pudor que em tua alma ardia.

hoje sou aquilo enquanto chuva, fogo, pedra,
tempestade que se perde e alastra
devastando as juras mais imprudentes
e até mesmo, aquelas outras, as mais puras.

solubilidades

n uma clar
idade
indis
tinta nessa tarde ma
cia,
luza mare
lada d
o tempo con
some
até o po
nto
a
final

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

do que se transforma

ficou tudo um pouco no ar
as pernas, os suspiros, o sexo.
tudo solto e desenfreado,
tão natural como o caos.

nunca se guarda uma certeza
por menor que seja
que uma leve brisa de aprazo
não despele e cauterize,
como ferida e cura.

o mundo, pode ser que
com um pequeno pensamento
catalise.

e se (te) transforme
invariavelmente,
numa alucinação
luminosa.