domingo, 18 de maio de 2008

carta n° 2 [conselho aos amigos - ou do caminho]

caros amigos, não se iludam!

a vida dói. mas tem lá seu mercúrio cromo e vermelho. toda ferida há de sarar, e todo desalento há de passar.

esperança, essa idiota equilibrista bêbada, resiste infinita à queda na face bruta da realidade.

toda tormenta há de acalmar, toda malícia há de sumir e todo caminho há de acabar. e só se têm felicidade verdadeira, quando se descobre que na verdade

, não existe caminho algum.

PS: detesto sair de casa. me lembra que eu sou menor que o mundo.

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imagem:http://pensadora2.blogs.sapo.pt/arquivo/caminho%20de%20ferro.jpg

sexta-feira, 16 de maio de 2008

CORPUS 1


I - do natural
põe tenção em cada músculo!
percebe a força da carne,
sente o ruído estrondoso do sangue!
conquista a forma perfeita
de cada músculo tracejado,
as víceras bem ordenadas
e a opulência da forma rija
de cada membro de teu corpo.
tateia no teu ventre a perfeição
gutural que incide sobre a fibra
de energia, beleza, vitalidade.

faz observar teus pés
sente o poder de cada passo
a retumbar no universo
com estrondo divino ao pisar o solo,
sente o poder incontestável: anda!
torna a pisar como se fosse um deus
com segurança e força,
dos pés às pernas tuas.

pega com firmeza descuidada
com as pontas dos dedos
cada centímetro puro de tua área
indelével, nos teus ossos, como na pele,
elege a forma perfeita do braço,
das coxas, dos ombros: a forma sua!
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imagem: http://www.zipt.com/images/body.jpg

CORPUS 2


II - do narciso de cada um
sente o fulgor que aflora
desde os seus olhos e boca
até as costas, e desce...
displicentemente.
renda-se ao fogo amável
que sobe pelas pernas
lambendo-lhe a virilha,
tocando-lhe o sexo...
revela teu desejo!

enaltece-te! venera-te!
arde-te! consome-te!
consuma-se!

renda-te ao menos uma vez
ao teu prazer aprisionado
mais primitivo, repudiável, lancinante!
lamba-se os dedos e os lábios.
toca sem mesura, com carinho,
com esse amor tão sujo
cada parte dessa pele que te limita
cada sensação, a mais escondida.

toma proveito da primazia do corpo ilimitado
que só se encontra no teu desejo imediato.

toca tua silhueta,
amamenta-te e deleita
cada segundo de sua vontade.

ama-te!

goza teu corpo!
domina teu corpo,
esbelto e pleno,
belo enquanto puro,
e forte e inteiro.
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CORPUS 3

III - do tempo
aproveita a força reunida
o amor próprio resgatado
e foge!

corre das cidades, dos outros,
de ti mesmo, do tempo.

pois quando o espelho alcançar-te
muito antes do desejado
pouco antes do esquecido,
do teu corpo tu há de sentir
apenas a falta...

decairás!... aos poucos.
e se convencerás do contrário.
mas na certezado engano,
até negar-se a ti mesmo, enfim.

ama-te agora
pois que no futuro não distante
terá perdido tua face,
teu vigor, tua forma.
mirrarás na pele e na vontade.

e cairás por terra,
e serás terra
e nada mais
nem ti.
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ELIZABETH FRINK (1930-1993) Running Man, 1976

CORPUS 4

IV - do amor

amei luzia como se amasse a mim
luzia luziu, reluziu, brilhou, sumiu
fiquei em luzia, me perdi de mim
ao acaso ando, sem face, sem luz
pois nem a vida sem luzia me seduz
devagar esmorecerei no esquecimento
e meu corpo se apagará n vento
até que em luzia eu volte a mim,
quando eu for consumido pelo tempo
no momento eterno do meu fim.

não amais no mundo alma segunda!
pois só lhe há de trazer sofrimento
e tudo, depois de prazer, será lamento
nada que não a causa de dor profunda.

conduz teu amor a ti - creia, te basta!
do contrário encontrarás pena nefasta
na beira da morte do ente querido
só uma parte de tu'alma irás consigo
e quebrantado viverás, sem abrigo,
o próprio amor negarás, te digo!

amor não é essa coisa que prospera
pois eis que após o amor, reina a espera.
ó amor, se vais, mata-me contigo
não me abandona na espera sem sentido.
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imagem: http://www.nrfoto.no/03art/artgallery/pages/body_01.htm

CORPUS 5

V - da morte
do que se fez não há mais nada
tudo é vazio é tudo é vazio é tudo
há somente uma pena ritmada
vazio e nada e vazio e nada e vazio
mas se escuta ainda um canto pio
tudo oculto tudo oculta tudo tido oculto
que reina acima nessa hora sagrada
nada e tudo oculto no vazio é revelado...
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imagem: http://images.artnet.com/images_US/magazine/news/artmarketwatch/artmarketwatch5-15-3.jpg
Piotr Uklanski, Untitled (Skull) 1999

CORPUS 6

VI - do além
plenitude joga teus raios sobre mim!
nada me perturba, nesse canto de jardim.
pouca coisa ou nada me incomoda
- nada sobra, senão um pouco de tédio,
nada falta, senão um pouco de desejo.
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imagem:http://www.antiques.dk.com/assets/420/10357149.JPG
Emile Albert Gruppe (1896-1978) - Nude at Forest's Edge

CORPUS 7

VII - da encarnação
Papai do céu, me põe no chão!
Lá na terra onde todos estão
meio perdidos, como grãos
num grande galinheiro.

Papai do céu, não me lava a mal
mas é que sinto falta de agito
do corpo que roda, sofrido
e amado, caído qual pião.

Papai do céu, não se aborrece
lembra que eu faço boa parece
não me esqueço do senhor, não.

Papai do céu, vê se me nasce!
pois aqui há perfeito amor e enlace
mas meu peito sente falta de paixão.
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imagem: http://hesperia.canalblog.com/albums/etudes_de_leonard_de_vinci/m-Etude_d_enfant.jpg
Leonardo da Vinci - "Etude d'enfant"

quinta-feira, 15 de maio de 2008

do ex-aprendiz



decláro-vos, hoje lhes nasceu um poeta!
- a novidade: não sou eu.
não sou poeta, se de fato este não o for.
pois se é que eu sinto dor,
ele a tudo e tudo e todos interpela.

foi parido pelo mundo poeta maior
poeta que não é só de vento
é carne e osso e pó e nó e dó
e ré e mi e fá e só lá si dá
com tudo que há para se versar.

filho, de versos roubados, alheios, ocultados:
toma para ti todas as palavras!
toma até minh'alma, se for de préstimo.

mas se essa não é de nunhum acréssimo,
devolve-a, para eu rendê-la aos vossos versos.

estou feliz, de fato: rio como quem é superado.

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*pro rafael
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Boy Writing (White Bonded Marble)

sábado, 26 de abril de 2008

da crítica - n°1 [o problema do mundo I]


meu filho
que não é meu
olhou no meu olho
já sem a vida
que eu lhe neguei
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*há momentos que não se deveria perturbar a imagem, viceral e aterradora como só ela, com a palavra mesquinha e pequena. mas é porque algo me dá voltas no estômago que fica meio impossível não vomitar algum verso.
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da simplicidade do universo


criancinha andando com papai:
ai, acho que tropecei num planeta!

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imagem: http://spaceflightnow.com/news/n0010/01darkmatter/001001universe.jpg

sábado, 5 de abril de 2008

apesar das aparências

por menos que pareça
(nas linhas erradas escritas)
sou eu feliz que escrevo,
rasgando a flor púrpura
da animosidade celeste
num deboche agridoce
à minha vã personalidade
- infame e intermitente.
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imagem: http://www.telefonodelaesperanza.org/img/uploaded/noticias/mascarasteatro.gif

my happy ending

que se perceba
em análise sincera:
viver bem é procurar
a sircunstância adequada
para morrer melhor.
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imagem: http://www.organic-city.com/apple.jpg/apple-full.jpg

no consultório psiquiátrico

distúbios psicóticos
depressivos,
ansiedade
neurotrasmissora,
hipnose anciolítica,

etc
e ECT

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*PS:
ECT = Eletroconvulsoterapia
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imagem: http://www.humornaciencia.com.br/biologia/cadeira-eletrica.jpg

terça-feira, 25 de março de 2008

carta n° 1 [de auto-piedade]

não importa o quão piegas isso possa soar, ou melodramático e auto-piedoso; sei que sentimentos como esses subsistem na escolha de cada palavra.
talvez com essas palavras tão emprestadas e gerais, de algum modo tosco e imaturo, meu coração deverasmente chora-deschorando, chora arrependido e humilhado, escondido, sem mais sequer dizer palavra própria. escusando-se a uma palavra tão estrangeira dele mesmo, que ao encontrar-se de fronte delas ele, assustado, sorri até, reconfortado por não ser responsabilidade de ele pensá-las e possa simplesmente cuspi-las - como a boca joga fora uma bala doce (ou seria azeda?)... mas depois se arrependesse de vê-la descartada, jogada como fosse sua palavra à exposição pública.
me reconforto pela autenticidade do sentimento, talvez. ou talvez me martirizo pelo desconcerto dessa coisa tão fora de mim e tão minha. pois no fundo sei que a dor brotara tão desarvorada que não me deixara clareza ou palavra pura, sendo mais real que muita dor que por aí anda vadia.
e num suspiro de renuncia, súplica, refúgio e desjuízo, me desprendo do meu orgulho, num jargão aborrecido - e nunca tão profundo:

"tenho saudades de mim."

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imagem:http://www.majarti.blogger.com.br/Solidao.jpg

sexta-feira, 14 de março de 2008

adivinho

o futuro é um porto,
em meio à névoa opaca e densa,
feito de mera miragem
e ausência.
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imagem:http://imagecache2.allposters.com/images/ARIPOD/40061245_b.jpg
Camille Pissaro, 1888. A Ilha Lacroix,Rouen. Efeito de Neblina.

fluxos


essa besteira, inteiramente,
é meu fluxo de consciência
inconstante, inconsciente.
se restringe a um bote
- qual serpente -
à efemeridade rouca
da minha voz inconsequente.
passa dia pós semana
conquistando império
(ausente)
de casas vazias
- qual romano -
com palavras gregas
instransigentes
esquecidas nas portas
de-batentes.
é fluxo de rio que bate
no mar gigante
e some, exaspera, transborda
num oceano titânico
indiferente.
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imagem: http://members.optusnet.com.au/aquatichabitats/sepik_river.jpg

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

a imagem irrefletida (ou o espelho esquecido)

sou feito de chuva e de fogo
sou fruto do acaso e da luta
e do medo, d' alvura, da lama

sou aquilo que clama
numa oração profunda
e mal acabada por tudo que
suspenso no momento
me escapa

sou a colheita impreterida
pretérita, insuficiente,
da carne-viva e desnutrida

sou o verme no ventre defunto
alimento da morte displicente
e tudo que te falta n' ausência da hora

sou a marca vermelha de exílio
que cada homem carrega, em chaga,
no peito suprimida por todo terror
que ronda o sonho, e enegrece a vida
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René Magritte - La reproduction interdite, 1937

escritura


escreve, filho da terra
acabada criatura,
para que o seu destino
inerte se complete.

escreve e ora, filho do céu
pois a vida vai além da cama
e muito além do passo final
e torto de cada homem.

escreve e chora, filho das águas
para que o pranto vaporoso
pelo vento te eleve em parte,
para algo além do medo.

escreve, esquece... vá embora
que de linhas tortas já se bastam
aquelas maiores e invisíveis,
escritas e esquecidas por Deus.

sábado, 26 de janeiro de 2008

santidades

taciturno, carrancudo, áspero,
recluso, casulo de prata e sal...
como te adoro, nesses dias,
minha pequena solidão!

me abastece e me bastarda
dessa pequena e alegre agonia
eu, teu filho santo e sacro, estou perdido
em algum canto da cama de dossel.

o quarto parece imenso como o silêncio
que se propaga sobre as montanhas roxas
de luto eterno pelo Nosso Senhor
nascido de rocha e madeira

o silêncio parece pequeno
quando comparado a palavras
tão minhas quanto vazias
de insenso e oblação
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foto:
http://www.photografos.com.br/exibirfoto.asp?id=56069
Ser Mão - Marcelo Lelis (15/04/2006)