se não choras é por ser triste
se não ris é por bobagem
se estas firme, há de cair
se estas morto, és passagem
se te alegras é por engano
se te sobra, é a fotaleza
se te falta, é mais leveza
se enalteces, és abandono
se há ruptura, és covarde
se meio dia, és alarde
se plenilúnio, és quimera
se partistes, assim quisera.
canto pra falar do nada
pra dizer tudo
em coisa alguma.
pontos de luz na treva
ou pontos de treva na luz?
porto pras minhas palavras
singelamente plurais e (im)puras.
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
a visão à beira do infinito
meus olhos, enfim, estão secos.
como o concreto firme
sob os rígidos andaimes.
já não há rios nesses olhos
nem poeira, nem estrada,
nem salvação, nem caos.
e parecem ver estáticos
estrelas pontiagudas
que nunca sessam de brilhar.
nunca, nunca, nunca...
os meus olhos eternos
já estão cansados
de ver o mundo acabar.
___
imagem: http://img5.travelblog.org/Photos/47789/224722/t/1741246-The-Eyes-Won-t-Leave-Me-1.jpg
como o concreto firme
sob os rígidos andaimes.
já não há rios nesses olhos
nem poeira, nem estrada,
nem salvação, nem caos.
e parecem ver estáticos
estrelas pontiagudas
que nunca sessam de brilhar.
nunca, nunca, nunca...
os meus olhos eternos
já estão cansados
de ver o mundo acabar.
___
imagem: http://img5.travelblog.org/Photos/47789/224722/t/1741246-The-Eyes-Won-t-Leave-Me-1.jpg
sexta-feira, 11 de julho de 2008
rit(m)os?
Meu Deus! a vida corre
e tenho pés calejados.
e os ouvidos calados
e a boca alejada e dura.
e está perdido e achado!
tudo que eu quiz
a não ser aquilo
que me diz minha falta.
que há nesse calor
que não sinto
e que já se foi na pressa
e na presa do tempo?
e tenho pés calejados.
e os ouvidos calados
e a boca alejada e dura.
e está perdido e achado!
tudo que eu quiz
a não ser aquilo
que me diz minha falta.
que há nesse calor
que não sinto
e que já se foi na pressa
e na presa do tempo?
desgaste-cronologia
nesse breve suspiro
não há espaço
para floreios.
tudo é muito grande
mas não inteiro
entre dois rios.
há um rio que sobe
o outro que desce:
passado e fluente,
num espaço pequeno
que encerra
dois momentos.
não há espaço
para floreios.
tudo é muito grande
mas não inteiro
entre dois rios.
há um rio que sobe
o outro que desce:
passado e fluente,
num espaço pequeno
que encerra
dois momentos.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
das baladas de amor entreabertas
bem que se quis depois de tudo ainda ser feliz.
mas não há o que fazer, além do que a vida diz
e tudo que resta é morrer no mar - de horror
quando se esquece o que vem da verdade, amor.
vem pra perto vem, vem de pressa vem sem fim
porque o meu fim já passou. não me resta tempo
ou vontade, e tudo além é potestade - e marfim
frio que alcança o pudor e a morte no escoupo.
me beija e me faz esquecer - dos meus medos
de tudo que errei, e da tanta falta que me fiz,
e de tudo que deixei escapar pos entre os dedos
pra que se queira, se possa, levar e ser feliz.
----
sinto que falta dizer alguma coisa, mas não tenho tempo no tempo que tenho
mas não há o que fazer, além do que a vida diz
e tudo que resta é morrer no mar - de horror
quando se esquece o que vem da verdade, amor.
vem pra perto vem, vem de pressa vem sem fim
porque o meu fim já passou. não me resta tempo
ou vontade, e tudo além é potestade - e marfim
frio que alcança o pudor e a morte no escoupo.
me beija e me faz esquecer - dos meus medos
de tudo que errei, e da tanta falta que me fiz,
e de tudo que deixei escapar pos entre os dedos
pra que se queira, se possa, levar e ser feliz.
----
sinto que falta dizer alguma coisa, mas não tenho tempo no tempo que tenho
segunda-feira, 7 de julho de 2008
desmatérias
algo como um grama de beleza
está perdido do teu rosto. caiu
e - benção! - veio dar no meu olho
como um cisco de um sonho.
que parte mais de ti carrego eu
que comigo embolo a balada?
e na novela inenarrada, quê
de tudo mais que anda nessa terra?
saiba que contigo levas, despecebida,
grande parte de minha alma,
e mesmo dessa lama que escorre
dos meus dedos, filho do barro que sou.
--
do dia que me apaixonei pela Vênus de Milo.
está perdido do teu rosto. caiu
e - benção! - veio dar no meu olho
como um cisco de um sonho.
que parte mais de ti carrego eu
que comigo embolo a balada?
e na novela inenarrada, quê
de tudo mais que anda nessa terra?
saiba que contigo levas, despecebida,
grande parte de minha alma,
e mesmo dessa lama que escorre
dos meus dedos, filho do barro que sou.
--
do dia que me apaixonei pela Vênus de Milo.
sábado, 5 de julho de 2008
logo que tudo fizer sentido, retomarei as rédeas da galáxia, que se agita brava, selvagem, despedaçando todas as palavras.
no momento, estou perplexo, no instante entre dois momentos, à espera de que algo aconteça derrepente e perpetue em minha mente todas as experiências pueris de inocência.
no momento, todos parados e eu no foco de luz sob a lareira baixa, a cantar minhas mais claras cartas de desejo podre e farto.
existindo à espreita.
insistindo na escrita.
no momento, estou perplexo, no instante entre dois momentos, à espera de que algo aconteça derrepente e perpetue em minha mente todas as experiências pueris de inocência.
no momento, todos parados e eu no foco de luz sob a lareira baixa, a cantar minhas mais claras cartas de desejo podre e farto.
existindo à espreita.
insistindo na escrita.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
carta n° 7 [de amor]
estátudoditononossosilêncio
teamoepontosemexplicaçãosemnecessidadedemedidasemomenorsentido
teamoporqueteamoebasta
teamoemeamoeamoamaratalpontoquenemespaçocabeentreaspalavras
teamotãoloucamentequenãomemeçopelagramáticaoupelosenso
teamoenãorenegoador
teamoeamo
teamo,amor
---
gozado essa carta tão cármica a um número tão cármico estar relacionado
poderia dizer muitas outras coisas, mas me abstenho para não quebrar o clima
quem sabedaí não nasce outra carta, de compromisso maior e menor que o nosso amor?
a aline
teamoepontosemexplicaçãosemnecessidadedemedidasemomenorsentido
teamoporqueteamoebasta
teamoemeamoeamoamaratalpontoquenemespaçocabeentreaspalavras
teamotãoloucamentequenãomemeçopelagramáticaoupelosenso
teamoenãorenegoador
teamoeamo
teamo,amor
---
gozado essa carta tão cármica a um número tão cármico estar relacionado
poderia dizer muitas outras coisas, mas me abstenho para não quebrar o clima
quem sabedaí não nasce outra carta, de compromisso maior e menor que o nosso amor?
a aline
segunda-feira, 9 de junho de 2008
carta n°6 [da solubilidade do ser]
são tantas as vozes destoantes que já não sei qual é a minha.tantos olhares curiosos, e tantas máscaras já usei, que não me lembro do meu rosto.tantos caminhos, que perdi meus pés.tantas melodias que já me esqueci as letras.tantas as tardes que me esqueci das horas.tantos sonhos que eu perdi o senso.e tantos danos que já perdi o sono.
tantas quantas coisas, letras, pessoas, momentos, palavras, pernas, desejos, noites e dias, poemas, folhas, anúncios, covas, passos, teorias, mentiras, beijos, filmes, discos e fotos e fatos e viagens e chegadas e partidas e perdas e ganhos e sons e núvens e rios e tanto mar que já me dissolvi tanto e tão completamente
que mil vezes eu ganheitantas quantas coisas, letras, pessoas, momentos, palavras, pernas, desejos, noites e dias, poemas, folhas, anúncios, covas, passos, teorias, mentiras, beijos, filmes, discos e fotos e fatos e viagens e chegadas e partidas e perdas e ganhos e sons e núvens e rios e tanto mar que já me dissolvi tanto e tão completamente
e me perdi.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
carta n° 5 [dos passados]
como tenho saudades daqueles tempos
que só voltam um segundo, se tanto
nessas fotos esquecidas no espelho.
existem lembranças, amigos, intentos,
tantas coisas que não se repetem
que não se retém - mesmo em sonho.
mas, antes que o coração apodreça
é melhor que se diga, de pressa:
não descumpro minha promessa!
não esqueço, me esforço e detenho
qualquer coisa mais em pensamento
que as velhas lembranças surradas
e nossa velha inocência perdida.
--------
... morrendo de saudades de tudo aí.
partes de mim que ainda não encontrei, residem aí, nas praias, escondidas na areia, no parquinho, na velha escola abandonada...
tanta coisa tão perdida e tão achada quebrada de baixo do tapete, atrás das cortinas do vento.
há uma coisa de lembrar o passado que nos consome, percebe?
algo que lacera e revitaliza, sem nunca apagar de todo, sem nunca se deixar morrer de todo... sem nos deixar morrer de todo, pelo menos.
um grande abraço na turma toda, especialmente em você.
anos que não vejo ninguém, a imaginação voa alto e pesada...
como vai tudo?
grande abraço.
mande notícias do mundo de lá.
__
escrita para Vitória, a cidade que habita uma parte nebulosa do meu passado, e para as pessoas que lá habitam, na cidade em mim.
acho que ainda tenho alguma corrente me prendendo lá, de forma deliciosa - e triste.
30/05/2008
que só voltam um segundo, se tanto
nessas fotos esquecidas no espelho.
existem lembranças, amigos, intentos,
tantas coisas que não se repetem
que não se retém - mesmo em sonho.
mas, antes que o coração apodreça
é melhor que se diga, de pressa:
não descumpro minha promessa!
não esqueço, me esforço e detenho
qualquer coisa mais em pensamento
que as velhas lembranças surradas
e nossa velha inocência perdida.
--------
... morrendo de saudades de tudo aí.
partes de mim que ainda não encontrei, residem aí, nas praias, escondidas na areia, no parquinho, na velha escola abandonada...
tanta coisa tão perdida e tão achada quebrada de baixo do tapete, atrás das cortinas do vento.
há uma coisa de lembrar o passado que nos consome, percebe?
algo que lacera e revitaliza, sem nunca apagar de todo, sem nunca se deixar morrer de todo... sem nos deixar morrer de todo, pelo menos.
um grande abraço na turma toda, especialmente em você.
anos que não vejo ninguém, a imaginação voa alto e pesada...
como vai tudo?
grande abraço.
mande notícias do mundo de lá.
__
escrita para Vitória, a cidade que habita uma parte nebulosa do meu passado, e para as pessoas que lá habitam, na cidade em mim.
acho que ainda tenho alguma corrente me prendendo lá, de forma deliciosa - e triste.
30/05/2008
segunda-feira, 26 de maio de 2008
verborragia sabedora
alguma coisa eu sei por ouvir dizer que se sabe sabendo que tudo que se sabe sabe-se ao meio e pouco menos que as coisas lúcidas são sabíveis descobri que saber é pouco mais que estar acordado mas sabendo que se sabe assim somente a metade há de fazer saber que saber é também dissabor pois nada saber é melhor que saber metade do que há para saberporém se sabe-se que a metade outra não se pode saber a metade é saber tudo pois se sabe que não podemos saber o que é impossível saber saber metade é saber o que há pra se saber e é portanto saber tudo
mas do dissabor do saber metade isso é a saber a coisa mais sabedora entre os saberes e os sabores
saberás que não há sabor real em saber e saber não tem sabor pois não queima nem esfria não fede nem cheira não sabe nem não sabe
saber é não saber e isso é saber pois sabendo que não se sabe faz saber que sabemos o primordial que saber não se sabe
e isso é saber o bastante
__
imagem: www.camiseteria.com/
terça-feira, 20 de maio de 2008
carta n°4 [a carta que eu não te escrevi]
Não me pergunte sobre aquele dia, pois me foge a lembrança. Coisas que são melhores esquecidas. Mas sempre levo teu rosto (por benção ou maldição). Sei que o tempo era muito vasto e muito curto, e que o espaço despedaçava. Diluia em lágriams algumas que brotavam puras e benevolentes à dor, criavam cravos e rosas e flores do campo, pequeninas e brancas em numerosas coroas.Lembro que a memória refestelava, e que a alma se partia (tamanho golpe que, sim, me lembro como se fosse ontem). Lembro que na fenda ficou vazio. Lembro que o vazio se encheu de veneno, que matava toda graça.
Lembro que tudo que fora dito, foi esquecido. Lembro que só me ficaram (ainda até hoje me perseguem) as palavras não ditas, entaladas, mutiladas no silêncio.
Lembro do travesseiro duro, da coberta fria, da noite demente que se arrastava perante as estrelas.
Lembro que o dia amanheceu como um desejo agonizante de viver...arrastou-se, arrastou-se...
e lá pela quase meia-noite dormiu.
Nunca te perguntei: como você gostava de mim?
Sei que eu nutria por você, e não me era segredo, inveja.
Uma inveja brincalhona, como que de um fã, de irmão mais novo. Minha vontade era mesmo te encontrar cada vez mais no meu espelho, no meu espírito. Queria ser como você, andar como você, falar como você, agir, sentir, pensar, amar e sofrer como você. Muitas vezes me odiava, se não pela minha incompetência, pela idiotice dessa inveja. Na verdade, ela ainda existe.
Nunca tive pena de você. Senhor de si, sei que havia algum motivo... E se não tivesse, não importava. Mesmo naquela madrugada que deprimia até a mais cálida rosa branca.
Não tinha pena, mas já não tinha inveja, nem ria...
A dor era tanta naquela despedida tão definitiva, tão eterna... perdia-se o sentido.
Enquanto te escondiam com madeira e terra e cruzes e números, mesmo assim submerso, te sentia ainda soerguido, vivo e inteiro, ao meu lado no vento, murmurante... em mim.
----
OBS:
a única e verídica carta
04/03/2007
(para o bruno)
__
imagem:http://damdam.typepad.com/_au_fil_de_mes_journes_/images/2007/03/14/78341958_73af52f87f.jpg
segunda-feira, 19 de maio de 2008
carta n° 3 [sobre as cartas]

porque acho que na verdade são as cartas que nunca recebi,
as palavras que nunca compartilhei comigo mesmo, ou com outrem.
e porque a poesia não se limita a versos e músicas.
porque não preciso ser coerente.
porque não é preciso a poesia.
porque há outras formas de se dizer o que se deve dizer.
porque é mais sincero porque é confortável porque faz bem porque é preciso
e quase necessário.
__
imagem: http://www.cs.kuleuven.ac.be/~dirk/.image/ada-letters.jpg
domingo, 18 de maio de 2008
carta n° 2 [conselho aos amigos - ou do caminho]
caros amigos, não se iludam! a vida dói. mas tem lá seu mercúrio cromo e vermelho. toda ferida há de sarar, e todo desalento há de passar.
esperança, essa idiota equilibrista bêbada, resiste infinita à queda na face bruta da realidade.
toda tormenta há de acalmar, toda malícia há de sumir e todo caminho há de acabar. e só se têm felicidade verdadeira, quando se descobre que na verdade
, não existe caminho algum.
PS: detesto sair de casa. me lembra que eu sou menor que o mundo.
__
imagem:http://pensadora2.blogs.sapo.pt/arquivo/caminho%20de%20ferro.jpg
sexta-feira, 16 de maio de 2008
CORPUS 1

I - do natural
põe tenção em cada músculo!percebe a força da carne,
sente o ruído estrondoso do sangue!
conquista a forma perfeita
de cada músculo tracejado,
as víceras bem ordenadas
e a opulência da forma rija
de cada membro de teu corpo.
tateia no teu ventre a perfeição
gutural que incide sobre a fibra
de energia, beleza, vitalidade.
faz observar teus pés
sente o poder de cada passo
a retumbar no universo
com estrondo divino ao pisar o solo,
sente o poder incontestável: anda!
torna a pisar como se fosse um deus
com segurança e força,
dos pés às pernas tuas.
pega com firmeza descuidada
com as pontas dos dedos
cada centímetro puro de tua área
indelével, nos teus ossos, como na pele,
elege a forma perfeita do braço,
das coxas, dos ombros: a forma sua!
__
imagem: http://www.zipt.com/images/body.jpg
CORPUS 2

II - do narciso de cada um
sente o fulgor que aflora
desde os seus olhos e boca
até as costas, e desce...
displicentemente.
renda-se ao fogo amável
que sobe pelas pernas
lambendo-lhe a virilha,
tocando-lhe o sexo...
revela teu desejo!
enaltece-te! venera-te!
arde-te! consome-te!
consuma-se!
renda-te ao menos uma vez
ao teu prazer aprisionado
mais primitivo, repudiável, lancinante!
lamba-se os dedos e os lábios.
toca sem mesura, com carinho,
com esse amor tão sujo
cada parte dessa pele que te limita
cada sensação, a mais escondida.
toma proveito da primazia do corpo ilimitado
que só se encontra no teu desejo imediato.
toca tua silhueta,
amamenta-te e deleita
cada segundo de sua vontade.
ama-te!
esbelto e pleno,
belo enquanto puro,
e forte e inteiro.
desde os seus olhos e boca
até as costas, e desce...
displicentemente.
renda-se ao fogo amável
que sobe pelas pernas
lambendo-lhe a virilha,
tocando-lhe o sexo...
revela teu desejo!
enaltece-te! venera-te!
arde-te! consome-te!
consuma-se!
renda-te ao menos uma vez
ao teu prazer aprisionado
mais primitivo, repudiável, lancinante!
lamba-se os dedos e os lábios.
toca sem mesura, com carinho,
com esse amor tão sujo
cada parte dessa pele que te limita
cada sensação, a mais escondida.
toma proveito da primazia do corpo ilimitado
que só se encontra no teu desejo imediato.
toca tua silhueta,
amamenta-te e deleita
cada segundo de sua vontade.
ama-te!
goza teu corpo!
domina teu corpo,esbelto e pleno,
belo enquanto puro,
e forte e inteiro.
__
CORPUS 3
III - do tempo
aproveita a força reunida
o amor próprio resgatado
e foge!
corre das cidades, dos outros,
de ti mesmo, do tempo.
pois quando o espelho alcançar-te
muito antes do desejado
pouco antes do esquecido,
do teu corpo tu há de sentir
apenas a falta...
decairás!... aos poucos.
e se convencerás do contrário.
mas na certezado engano,
até negar-se a ti mesmo, enfim.
ama-te agora
pois que no futuro não distante
terá perdido tua face,
teu vigor, tua forma.
mirrarás na pele e na vontade.
e cairás por terra,
e serás terra
e nada mais
nem ti.
o amor próprio resgatado
e foge!
corre das cidades, dos outros,
de ti mesmo, do tempo.
pois quando o espelho alcançar-te
muito antes do desejado
pouco antes do esquecido,
do teu corpo tu há de sentir
apenas a falta...
decairás!... aos poucos.
e se convencerás do contrário.
mas na certezado engano,
até negar-se a ti mesmo, enfim.
ama-te agora
pois que no futuro não distante
terá perdido tua face,
teu vigor, tua forma.
mirrarás na pele e na vontade.
e cairás por terra,
e serás terra
e nada mais
nem ti.
__
ELIZABETH FRINK (1930-1993) Running Man, 1976
CORPUS 4
IV - do amor
amei luzia como se amasse a mim
luzia luziu, reluziu, brilhou, sumiu
fiquei em luzia, me perdi de mim
ao acaso ando, sem face, sem luz
pois nem a vida sem luzia me seduz
devagar esmorecerei no esquecimento
e meu corpo se apagará n vento
até que em luzia eu volte a mim,
quando eu for consumido pelo tempo
no momento eterno do meu fim.
não amais no mundo alma segunda!
pois só lhe há de trazer sofrimento
e tudo, depois de prazer, será lamento
nada que não a causa de dor profunda.
conduz teu amor a ti - creia, te basta!
do contrário encontrarás pena nefasta
na beira da morte do ente querido
só uma parte de tu'alma irás consigo
e quebrantado viverás, sem abrigo,
o próprio amor negarás, te digo!
amor não é essa coisa que prospera
pois eis que após o amor, reina a espera.
ó amor, se vais, mata-me contigo
não me abandona na espera sem sentido.
__
imagem: http://www.nrfoto.no/03art/artgallery/pages/body_01.htm
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