sábado, 11 de novembro de 2006

cronologias


o tempo transgride a esquina.
não vê o sinal vermelho
ou qualquer outro.

o tempo atravessa a rua
e a casa e a alma
e a entranha.

o tempo muda
a cara muda
a boca muda.

tudo muda o tempo
que atravessa tudo mudo,
silencioso e inconseqüente.

o tempo rompe a calma
o tempo espalha lágrima
o tempo voa além das nuvens

o tempo não pára como os relógios
o tempo não morre...
não eu não tu nem eles. só, o tempo.

eu sumo. tu somes. nos fomos.
- sombras de areia
da ampulheta cósmica.

poeira sobre o tablado
poeira da tapeçaria
nas sepulturas
(tapeçaria: onde jaz seu tecelão?)

o tempo cala até os livros.
e cela os restos
sob a terra fria.

o tempo mata
até as lembranças.
e eu com isso?

sumiço.

tudo quisto engole o tempo.
o tempo engole tudo tido:
a cara, o espelho, a vitória, o vestido,
a espada e a estátua, os palacetes...

todo pretérito é perfeito
e todo futuro inexato
estraçalha o peito.

...chronos ainda é,
e muito,
senhor o mundo
e dos vermes.

Um comentário:

Matheus disse...

O tempo serve pra medir a espera, a contagem regressiva, o termo.
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A aflição lá denuncia é a de quem só espera. E é a espera mais aflitiva de todas.

Caso queira descobrir mais sobre essa aflição, posto que sei que a tem, recomendo Esperando Godot de Samuel Becket.

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Não carece agradecer por nada. Assim como não carece diminuir-se. Compartilhamos muito mais que o nome. Compartilhamos do mesmo dom de ser itabirano. Ou seria maldição?

Grande abraço.